Kama $utra

- Me beija.
Os dois deitados. A casa em perfeito silêncio. Noite.
O beijo começou leve e em pouco tempo ganhou contornos mais densos. Ela parou.
- Putz... A escola da Maria Clara...
- O que?
- Não paguei... Esqueci por completo... Deixei ali perto do computador e esqueci.
- Paga on line...
Ela levantou e sumiu para fora do quarto.
Ele ficou olhando o nada na escuridão pensando em temas que segurassem sua ereção. Não deu. Ela voltou.
- Pagou?
- Sim, acho que sim... Amanhã era mais 10%...
- Hummm....
Ela deitou e ficaram por um minuto olhando o teto.
- Me beija...
Selinho. Língua. Ela ficou rapidamente molhada. Ele sempre tinha este efeito sobre ela.
- Ouviu isso?
- Não...
Ficaram olhando na escuridão na direção da baba eletrônica. Tosse e um choramingo. O aparelho pisca.
- Vou lá ver...
- Deixa que eu vou.
Ele levantou e saiu do quarto. Ela ficou na escuridão, atenta ao diálogo dele com o filho no outro quarto. Ele falava como se um adulto o ouvisse.
Quando ele voltou, ela estava sentada na cama.
- Que cara é essa?
- Ele dormiu?
- Sim... Deve ter sido só um pesadelo... Mas que cara é essa?
- A gente tem que levar ele de novo naquele médico...
- Eu sei... É só eu receber que eu levo.
- O que será esta tosse?
Ele deitou sem responder. Sabia que nenhuma resposta seria suficiente.
- Deita.
Ela apenas deixou seu corpo escorregar para baixo do edredom. Os dois bocejaram quase ao mesmo tempo.
- Me beija.
Ficaram ali se beijando, acariciando, tentando encontrar novidades. Estavam quase prontos.
Ele parou.
- O carro ficou pronto...
Ela distraída com o beijo continuou. Repentinamente parou também.
- Porque lembrou disso agora?
- Porque se pegar o carro, não tem grana pro médico...
Ela sentiu seu seio perder a rigidez ainda nas mãos dele.
Ficaram se entreolhando. Aquele papo mental de casal.
- Você podia pedir pra sua mãe...
- Nem pensar!
Falaram quase juntos. Sorriram por um adivinhar o pensamento do outro.
- Pegando o carro tem que ligar pro carinha do seguro...
- E daqui a dois meses tem que separar a grana do IPVA...
- Tem que passar dinheiro pra conta...
- O especial... Já tô de novo no especial.
Um imenso silêncio invadiu o quarto dos dois que agora partiam distantes para seus pensamentos. As frases flutuavam sem direção pelo ar. Eco. De já vu. Mais do mesmo.
Longe um do outro e o desejo perdido em algum lugar.
Ela ainda pensou nas compras. Ele lembrou de pagar a pelada de quinta.
Ela virou de bruços e abraçou o travesseiro e ele de imediato colocou a perna sobre ela. Bocejaram outra vez juntinhos e se entregaram ao sono.
Depois de tantas posições, estavam exaustos.
