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O Homem que Não Queria Ir a Copa do Mundo.

Entrevista coletiva, aquele clima, microfones, burburinho e o técnico entra em cena. Senhor supremo do destino de milhões de brasileiros, traz a esperada lista em mãos.
Flashes disparam numa tagarelice de luz, metralhando de todos os lados.
Ele já entra olhando para baixo com aquele mau-humor de quem de fato será esquecido com o tempo, é coadjuvante, menos que o craque e, sinceramente, está mais ali para atrapalhar do que ajudar. Praticamente para torcer de um ponto privilegiado.
Sabe que aqueles 23 que convocou não vão agradar a todos. Nem em casa agradou.
- Você vai levar este sujeito em vez daquele outro? Tu não entende de futebol mesmo hein? Se não trouxer esta a Copa, nem volta pra casa! – Foi assim que sua mulher o acordou pela manhã.
Equilibra em suas costas este peso, que só a vaidade deixa mais leve. Senta a frente dos microfones e vai dizendo a lista em tom monocórdio, como se fosse um último pedido.
Tudo dentro do previsto, um pequeno frenesi, o grupo já fechado há tempos até que chega o último nome...
- E o Pompeu.
Silêncio no local. Ele levanta, sorri e se retira.
O que começou com um cochicho vira um burburinho e em pouco tempo uma algazarra.
Afinal: quem era Pompeu?
Todos os sites, colunistas, especialistas e Marias Chuteiras se perguntavam o mesmo.
Quando o telão mostrou a foto de Pompeu, em seus 50 anos, ele em casa foi acordado pelo telefonema.
- Pai, o que o senhor esta fazendo na seleção? – Dizia o filho mais velho gritando do outro lado do aparelho. – Liga a TV!
Pompeu acordou e meio sonado, ligou o televisor , quase zero, comprado em prestações até a outra Copa.
A mulher entrou na sala vinda da casa da vizinha. Coração na boca.
- Pompeu de Deus, que negócio é esse?
- Ah, só pode ser pegadinha. Coisa do Tavares. – Vaticinou Pompeu.
Não, não era. Tavares também foi pego de surpresa, lá no Méier, e ficou puto de nunca ter pensado em tal sacanagem.
Logo a imprensa especializada cercava a casa de Pompeu. Um dois quartos quase que todo pago, coisa de mais dez anos e tudo se resolvia, virava ponto de agito do bairro.
O telefone não parava. Pompeu tentava explicar, justificar, apontar caminhos.
Mas simplesmente não sabia.
O técnico justificou a escolha como tática e ponto. Precisava do Pompeu.
Pedido de entrevistas, coletivas e até um convite para um ensaio sensual. Não, aquilo não era sério.
Pompeu decidiu apenas ignorar tudo e todos e levar sua vida como se nada daquilo tivesse acontecido.
Ilusão que não durou a sua primeira ida a padaria.
Um link ao vivo entrou no principal jornal da maior emissora de TV, com direito a narração:
- Vai Pompeu, entra livre pela esquerda, passa por um, passa por dois e pede três pãezinhos...
Um repórter surge na frente de Pompeu, luz e câmera.
- Pompeu, diz pra gente como é a emoção de comprar este pãozinho?
Pompeu saiu correndo para casa, driblando fãs, jornalistas e até empresários ávidos por seu talento.
Em outro canal especializado o mediador do debate esportivo pedia a opinião do craque de outrora.
- Pompeu está em forma, não é mesmo?
- Comprar pão, receber troco e se lançar para casa é coisa de quem conhece. E viu o pique que ele deu fugindo dos repórteres? Aquilo é coisa de ponta esquerda, dos que vão a linha de fundo para cruzar... – Completou o ex-ídolo. Outro comentarista, sem a menor intimidade com a pelota mas grande teórico – existem muitos – começou uma crônica de improviso.
- Qual Epaminondas, grande half-center de 1953, Pompeu traçou uma trajetória mágica pelo estabelecimento, e este pão, besuntado da manteiga dos craques, entrará para história como um momento mágico para os panteões do esporte bretão. – Teve gente no estúdio que chorou.
Pompeu entra em casa e bate a porta empurrando o povo que se aglomera para fora. A mulher da cozinha grita.
- O moço da Inter de Milão ligou de novo e dobrou a proposta. Deixou o número e disse que pode ligar a cobrar!
Pompeuzinho, o filho mais novo, entrou pela porta da frente, abraçado a ele, a nora assustada e arrastado pela mão, o neto chorando.
- Pelo amor de Deus pai, nossa vida virou um inferno! Tão maltratando seu neto na escola!
- Tão chamando o senhor de traidor da patriáááááá – o final da frase do menino emendou com o choro.
Aquilo tinha que cessar. Pompeu caminha até a porta e abre num gesto corajoso.
- Tá bom, tá bom, diz lá que eu vou pra tal de Copa do Mundo!
O povo vibrou. Pompeu saiu carregado pela multidão. Como todo craque deveria ser.
Uma semana depois já estava com o grupo.
Por ser mais velho, logo assumiu a liderança da equipe. Muitos buscavam nele um conselho, um toque, uma palavra amiga.
Pompeu com seu jeito paternal explicava as coisas da vida.
Num piscar de olhos a Copa começou. Pompeu ganhou sua posição nos treinos. Dava mais toque ao time e formou com mais três boleiros o que foi chamado de losângulo fascinante.
Na primeira fase foram goleadas que entrariam pra história das Copa. Na segunda, um jogo duro contra a Holanda e nada mais. Passar pela Argentina foi fácil. Pompeu fez dois. Maradona reconheceu que talvez Pompeu fosse seu sucessor. Os dois acima de Pelé é claro.
Na final Pompeu era dúvida. Os joelhos, sempre eles, não ajudavam.
Não dava pra jogar os noventa minutos.
Jogo complicado, o narrador perguntava se Pompeu não havia amarelado.
Perdendo por um gol a seleção foi para o intervalo. O técnico se aproximou de Pompeu:
- Sabe porque o convoquei?
O técnico murmurou algo no ouvido de Pompeu que sorriu.
Na volta ao campo Pompeu estava lá. Logo no início Pompeu lançou o centro-avante que fez o primeiro.
Com uma bela cobrança de falta Pompeu virou o jogo e aos quarenta e três minutos fechou o caixão com um belo sem pulo do meio da rua.
Foram semanas de festas. Pompeu sumiu da família por quase uma semana.
Entrevistas, fotos, encontro com presidente, festas de jogadores e Marias Chuteiras até que Pompeu cansou.
Chegou em casa lá pras tantas da madrugada e a esposa avisou em meio ao sono.
- Tem bolo de carne na geladeira.
- Tô sem fome.
Pompeu sentou em frente a TV e ali ficou vendo resenhas e reprises durante dias.
O que o treinador falou para ele antes da decisão ninguém nunca soube.
Com o caneco na mão e um sorriso bobo no rosto, Pompeu, esperava resignado talvez acordar a qualquer minuto.

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Céu de Cereal


Antes da pelada sempre jogamos conversa fora.

Coisa normal de homens prestes a travar embate campal, fazer gols, delirar e ter seus momentos de glória.

Falávamos vagamente sobre viagens, vôos e afins. Eis que alguém levanta a dúvida:

- Não entendo esta coisa do Comandante avisar que saiu mais tarde, mas para compensar, vai aumentar a velocidade do avião para chegar no horário... Porque já não se vai nesta velocidade e apenas se chega mais rápido.

Após risadas de todos, alguém lúcido, e mais bem informado que a maioria, explicou que existe um certo cálculo entre aceleração x combustível que pode deixar a viagem mais cara ou mais barata de acordo com a velocidade e a distância percorrida.

Na mesma hora viajei.

Em tempos de caos aéreo, imaginemos que isso vire regra num futuro próximo.

Você está num vôo que já saiu bem atrasado e o comandante, entre todas aquelas informações pavorosas, tipo 10 graus abaixo de zero é a temperatura exterior, altitude de “muitos” mil pés, diz com aquela voz marrenta de quem está fazendo algo simples:

(Comandante)

- Boa tarde senhores passageiros, aqui é o Comandante Otacílio e quero me desculpar em nome da SkyWay, a Linha aérea da nossa terra, pelo nosso atraso em solo. Para ganhar tempo vamos aumentar nossa velocidade em vôo em 20%. Desta forma chegaremos em nosso destino no horário marcado...

Após relaxar na poltrona, você pensa que aquela tonelada de aço só cai no vôo dos outros. Então a aeromoça surge em sua frente com aquele olhar de pingüim de geladeira.

(Aeromoça)

- Boa tarde passageiro, seja bem vindo ao vôo 472, da SkyWay, a Linha aérea da nossa terra.

(Você)

- Boa tarde...

Ela sorri impassível e continua seu speech como se nada tivesse ouvido.

(Aeromoça)

- Conforme a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2013, pela alteração na velocidade as companhias aéreas podem cobrar a diferença das passagens in loco.

A Aeromoça começa a digitar num pequeno Palm Top.

(Aeromoça)

- O seu bilhete, assento 3B, é de categoria executiva plus e pelos meus cálculos... Temos uma diferença de 47 Reais e 22 centavos... Correspondente a 20% no aumento da velocidade da aeronave...

(Você)

- ... Como?

A Aeromoça abre um sorriso de “nossa, outro burro” e o atira em sua direção.

(Aeromoça)

- Conforme a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2012...

(Você)

- Que porra de lei é essa?

(Aeromoça)

- É a a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2012, que pela alteração na velocidade as companhias aéreas podem cobrar a diferença...

- Que louco...

- Não! In loco. Quer dizer, no local.

Outro olhar de “Burro” lançado em sua direção. Você fica puto.

(Você)

- Sim minha filha, eu entendi, eu sei o que é “in loco”. Só acho uma absurdo! E meus direitos?!

(Aeromoça)

- Ah, o senhor tem o direito de pagar em cartão, crédito ou débito, ou em cash.

(Você)

- Quer dizer que vocês atrasam e eu que pago o pato.

(Aeromoça)

- Não senhor. Patos não são aceitos.

Você olha para Aeromoça descrente que ela tenha feito uma piada. Saca seu cartão e paga prontamente. A moça se afasta e você volta a pensar na vida. Minutos depois o comandante volta à carga.

(Comandante)

- Boa tarde senhores passageiros, mais uma vez quem fala é o Comandante Otacílio da SkyWay, a Linha aérea da nossa terra. Devido aos ventos sul sudeste de latitude 32º com 79 graus de inclinação, informamos que nossa aceleração descerá em 12%, mesmo assim chegaremos em nosso horário normal.

Qual aparição a Aeromoça está a sua frente mais uma vez.

(Aeromoça)

- Boa tarde passageiro, seja bem vindo ao vôo 472, da SkyWay, a Linha aérea da nossa terra.

(Você)

- O que foi agora?

(Aeromoça)

- Conforme a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2013, pela alteração na velocidade da nossa aeronave...

(Você)

- Ah minha filha, não me diga que vou ter que pagar mais alguma coisa?

(Aeromoça)

- Não, olha que coisa boa... Temos que restituir o valor pago ao senhor.

(Você)

- Ah agora sim... Finalmente algo que funciona neste país!

(Aeromoça)

- E o senhor ainda pode escolher o sabor!

A Aeromoça estende em sua direção uma caixa repleta de barrinha de cereal.

(Você)

- O que é isso?

(Aeromoça)

- Barrinhas de Cereal, saborosas e nutritivas! Temos chocolate com coco, amêndoas...

(Você)

- Que são barrinhas eu to vendo, mas o que significa isso?

(Aeromoça)

- Conforme a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2013, o seu troco pode ser dado em produtos da empresa... Ou seja, barrinhas. Prosseguindo, temos maça com mel, crocante...

(Você)

- Eu não posso ficar preso a isso!

(Aeromoça)

- Ah, as barrinhas tem muita fibras, preso o senhor não vai ficar!

(Você)

- Isso é um absurdo... Vou ao Procon! A ANAC! A policia Federal! Não sou banana!

(Aeromoça)

- Perfeito... Pelos meus cálculos o senhor tem direito a 4 barrinhas. Aqui estão... De banana, não é?

Você fica sem ação segurando as barrinhas tal qual um garoto com as mãos queimando pela vela durante sua primeira comunhão. A Aeromoça segue para outra poltrona distribuindo as barrinhas. Você fecha os olhos como se buscasse refúgio do ódio imenso dentro de seus pensamentos. Esta quase relaxado quando o comandante volta.

(Comandante)

- Boa tarde senhores passageiros, mais uma vez quem fala é o Comandante Otacílio da SkyWay, a Linha aérea da nossa terra. Perdemos a força dos ventos sul sudeste de latitude 32º com 79 graus de inclinação. Ao mesmo tempo, uma inversão térmica faz com que nossa aeronave tenha que elevar sua velocidade em quase 15%. Mas chegaremos pontualmente ao nosso destino.

Você abre os olhos e quem está a sua frente sorrindo enquanto digita no palm top?

(Aeromoça)

- Conforme a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2013, pela alteração na velocidade as companhias aéreas podem cobrar a diferença das passagens in loco. São 27 Reais...

Sua vingança está ali, doce, pronta em suas mãos. Você dá um sorriso maléfico e estende as barrinhas na direção da Aeromoça replicante. Ela devolve o sorriso no mesmo nível.

(Aeromoça)

- Infelizmente senhor não aceitamos barrinhas, apenas dinheiro ou cartão. São mais 27 reais, o senhor vai pagar como?

O Avião não chega a seu destino.

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A Virada do Ano


E lá ia o Almeida caminhando de um lado para o outro.
A taça de champanhe tremia em suas mãos e ele via tudo através de uma neblina fina.
A batida de amendoim havia descido melhor que aquela Espumante. O que tinha demais a velha Cidra? A mulher dizia que não. Na posição em que eles estavam uma Cereser pegava mal.
Quantos anos-novos foram regados a Cereser? Quantos? Uns 30.
Depois veio a vendinha, que virou padaria, uma filial, duas, três. E Copacabana, Prado Júnior, cobertura e todos novos amigos que alguns trocados trazem.
Não foi assim tão rápido, mas pra ele foi.
A cabeça girava. Almeida olhou para a varanda e não teve coragem de se aproximar. Afinal, metade das pessoas que se acotovelavam para ver o mar e os fogos, ele não conhecia dos tempos da Cereser. Era gente que veio junto com a Espumante, com a Prado Júnior, com a cobertura. Agora, apinhada. Copacabana se arreganhava como as moças que lá ganham a vida, mais bela e branca do que nunca. Queria ver amanhã, só os bêbados, flores e promessas espalhadas pela areias.
Já ia dar meia-noite e a euforia tomava conta de todos.
A Espumante não conseguia tirar o cheiro da batida de amendoim dos bigodes de Almeida. Mais um gole longo, outro, outro. Não era só virada de ano, era virada de século. O bug do milênio, o fim dos tempos, Nostradamus, uma odisséia no espaço.
Almeida encarou o seu relógio de pulso e viu os últimos 5 segundos do ano passarem a ponteiradas.
5.
Adeus ano velho...
4.
Feliz ano novo...
3
Que tudo se realize...
2
No ano que vai nascer...
1
Muito dinheiro no bolso...
0
- EU SOU GAY!

Os fogos explodiam lá fora em meio ao silêncio absoluto na varanda do apartamento. Todos em uma coreografia olharam para Almeida. Mulher, filhos, netos, amigos Cereser e Amigos Espumantes olharam para Almeida.
- Rei de que Almeida? Rei de que? – disse um.
- Não é Rei, é gay! – Outra voz.
- Gay é você! – Um terceiro.
- Não, gay é o Almeida. – Sempre tem um espirituoso.

Sem notar Almeida empunhava o microfone do Karaokê.
Nem Almeida acreditou no que havia dito.
Quer dizer, acreditar ele acreditava, pois sabia disso fazia tempo, mas não acreditava que havia dito. E compelido de uma força maior que ele repetiu.
- Eu sou gay!

O cunhado se aproximou.
- Porra Almeida! Falei pra não abusar da batida... – O Cunhado tenta tirar o microfone das mãos de Almeida.

Ele puxa com força. Todos fazem um “óHHHHHH”.
- Gaaaaaay! – Repete Almeida colado a boca de ferro, com direito a delay.
O cunhado se atraca com Almeida tentando pegar o microfone.

Vez por outra Almeida aproxima o microfone da boca e afirma: GAY! Os fogos ainda pipocam no ar como uma celebração a revelação de Almeida.
Todos correm para apartar. Raimundo, um padeiro novato, nos seus 30 anos, entra na briga aos berros.
- Solta ele Pão-doce! Solta ele!

Todos se afastam intrigados. Raimundo pega Almeida gentilmente em seu colo e o coloca de pé. Ajeita sua roupa carinhosamente, dando tapinhas pelo seu corpo.

- Pão doce? – disse um.
- O que doce? – Outra voz.
- Tampa os ouvidos da criança! – Uma terceira, maldosa.

Almeida encarou a todos, mulher, filhos, parentes, cereseres, espumantes... Olhou Raimundo nos olhos e um contraluz dourado surgiu, vindo de um dos fogos da praia, emoldurando o rosto de seu parceiro. Raimundo sorriu cúmplice para seu Pão Doce.
- Te amo Rosquinha! – Murmurou Almeida.

Os dois se entrelaçaram e em meio aos fogos e as gritarias vindas da praia, deram um longo, apaixonado e molhado beijo.
E ninguém se atreveu a perguntar porque Rosquinha.
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A Unidos dos Dois na Sala.


Como temos novos leitores (ou seguidores, o que me faz sempre sentir o Edir Macedo) coloco aqui de novo a razão de tudo isso: meu conto finalista no Contos do Rio - do Jornal O Globo. Tem um tempo que já havia publicado e acho que vale a reprise. Espero que divirtam-se e comentem a vontade :)
— Maria Amália, pelo amor de Deus, o que é isso?!
Ela sabia, há mais de 30 anos, que ele só a chamava pelo nome composto quando a coisa era grave. Ele só usava este tom pra ver se conseguia trazer a luz à cabeça da mulher, que às vezes era leonina ao extremo.
— Maria Amália?
Ela sabia que ele repetiria o nome como se fossem palavras de ordem. Ele sabia que tinha que repetir, era o jogo.
— Vai me ajudar ou vai ficar só olhando, Carlos Alberto!
Casados há mais de 40 anos, já foram amor, paixão, ternura, depois “pai” e “mãe” e hoje, sem os filhos por perto, quase não se chamam mais. Já tem todos os rituais, horários, lugares da casa decorados. Sabem com exatidão quando um entra, quando o outro sai, e assim, passaram a não precisar mais usar seus nomes. Ela surgiu da cozinha carregada de coisas.
— Sabe há quanto tempo eu peço para ir a um desfile de Escola de Samba, Carlos Alberto?
Duas vezes o nome composto usado por ela. A coisa era grave. Ele a ajudou a pousar os sacos pretos de lixo, repletos de bugigangas.
— Ano que vem, ano que vem, ano que vem... Cansei! O Sambódromo só conheço de passar ao lado quando íamos visitar sua mãe em Niterói! Hoje nem isso!
Era sagrado. Uma vez por mês, num domingo, a ida e volta dentro da Parati 99, Laranjeiras ao Barreto. Um dia a sogra morreu.
— Agora, sabe onde vai ser o desfile?
Ele apenas levantou as sobrancelhas.
— Aqui em casa!
As sobrancelhas agora pareciam querer voar da sua cara.
— Isso mesmo, Carlos Alberto, fiz uma fantasia para cada Escola de Samba. E como você nunca me levou ao desfile, vou desfilar em todas as Escolas. TO-DAS!
E deixou cair o último saco preto. Foi em direção à TV e ligou. Pela telinha os dois viram a animação da platéia, a repórter que perguntava à destaque sobre a emoção, e o comentarista errar uns três ou quatro nomes dos famosos que apareciam. Em cinco minutos começaria o desfile. Ele em pé, petrificado. Ora olhava para ela, ora para a televisão.
— A União Do Rio Bonito está quase na avenida e minha ala é a segunda!
Ela pegou um dos sacos e sumiu para o banheiro. O enredo era “As Maravilhas do Engenho e o doce sabor encantado do néctar do açúcar”. Logo surgiu na sala enrolada em dois bambus e com quilos de açúcar empilhados na cabeça. Tudo amarrado por uma touca transparente. Ela notou o que ele queria dizer pela expressão dele.
— É improviso Carlos Alberto! Improviso! Pesquisei e vi que o caminho era a ala da Cana de Açúcar.
— Mas, um bambu?
— Parecido Carlos Alberto, parecido...
A Escola entrou quase que imediatamente. E lá foi ela cantando o enredo e evoluindo pela sala. E lá foi ela sambando, cantando a plenos pulmões. Ao final dos 80 minutos desabou ao lado do marido, exausta. Ela sorria. Ele a abanava com a toalhinha da mesa de centro.
— Nossa, se eu soubesse que era assim, eu já tinha desfilado antes...
— Quer uma água? Um suco?
— Não posso, tenho que me trocar que a União de Santo Arcanjo já esta na concentração...
O enredo era “Da negritude ao encanto que sucumbe a nova raça digital.”. E surge com rosto pintado de preto. Um monitor de computador vazio fazia um capacete. o marido não conteve o riso.
— Pode rir, Carlos Alberto, mas este ano a gente ganha!
E o desfile teve início. A empolgação parecia maior. A tinta do rosto escorria manchando o vestido. Ao final ela parecia um mecânico no final de um dia. Ela arfava e ainda sorria.
— Tira a mesinha, tá atrapalhando... E água, preciso hidratar...
Ele correu para ajudar. Mesinha fora, água pra dentro. E mais uma troca de roupa. A Mocidade Velha Guarda já estava pra entrar para levar seu “Darth Vader versos o Dragão da Maldade em sonhos de celulóide”. Ela surge de gueixa e espada Jedi, que o neto emprestou. Sambou e pulou como se não houvesse amanhã. De gueixa virou Carlitos, bengala um toco de madeira. De Carlitos se torna Cleópatra, a cobra uma mangueira velha. Ele, tal qual um técnico de futebol, sem abandonar sua área, vez por outra oferece água ou alguma instrução. Após a penúltima escola ela desaba na poltrona.
— Já são mais de seis horas de desfile... Olha o coração, amorzinho...
Neste momento os olhos dela brilharam. Os dois haviam recuperado por um momento uma cumplicidade que ela já não via há muitos carnavais. Ela lembrou por um momento do rapaz que havia lhe abordado no baile pré-carnavalesco do Fluminense. Ele estava ali, em algum lugar daquele rosto enrugado que a olhava com preocupação.
— Só falta uma, meu amor... São seis por dia...
Ela levantou com certo esforço e caminhou até o banheiro arrastando atrás de si o último saco preto. De lá saiu como baiana improvisada, uma bola de futebol na cabeça.
— Baiana, Maria Amália?!
— Baiana é mais fácil. Só fica evoluindo quietinha...
O locutor anuncia a Porto do Império, com “Dois pés do craque surge as maravilhas de um chão de estrelas”. Ela começa a evoluir e tonteia. Ele a segura. Ela o empurra com delicadeza. Evolui mais uma vez e mais uma cambaleada. Ela desaba aos prantos no sofá.
— Me ajuda Bebetinho... Me ajuda... Bebetinho.
Aquele nome o fez remoçar uns 30 anos. Talvez mais. Sem pestanejar, ele despiu a mulher cuidadosamente. E sempre de olho na TV, até para não perder os pontos e atrapalhar a escola, surgiu Carlos Alberto vestido de baiana. Ele começou a evoluir um tanto ou quanto travado. Mas, em segundos, era uma alegria só na avenida. Ele ainda olhou para o sofá e a viu dormindo, sono solto, seios à mostra. Mesmo assim não parou. Cumprimentou os jurados, acenou para o Sambódromo lotado e fez o que tinha que ser feito. Sua única certeza era de que tinha que estar preparado.
Afinal, no dia seguinte teria que enfrentar mais oito horas de avenida.

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A Tal da Portabilidade

(foto : Úrsula Andress)





Tempos de portabilidade. O cara chega no balcão da loja acompanhado da mulher. Lá se vão 25 anos de casamento. Baseado em fatos reais.


(ATENDENTE)
- Bom dia, em que posso ser útil?


(MARIDO)
- Já está valendo a portabilidade não é meu amigo?


(ATENDENTE)
- Com certeza senhor...

(MARIDO)
- Pois bem. Vim trocar minha mulher...


A mulher faz cara de surpresa.


(MULHER)
- Que isso Almeida? Você está maluco?!

(MARIDO)
- Mariza, se comporta que estou falando com o moço...

(ATENDENTE)
- Qual motivo?


(MARIDO)
- Nossa, ta dando muito defeito!


(MULHER)
- Defeito?! Defeito? Que absurdo, seu... seu... Éumabsurdoquevocêmetrateassimdepoisdetantosanosdecasamentovocêéquevivedandodefeito – A mulher desandou a falar sem parar. Nem respirar ela respirava.


(MARIDO)
- Tá vendo? Travou a falar. Por isso que às vezes não ouço mais e não entendo quando falo. Fora sumir as palavras como agora...


(ATENDENTE)
- É pelo que estou vendo, tá travando mesmo...


(MARIDO)
- Pois é, e já liguei para a garantia, mas os pais responderam: nem pensar! Aí decidi: vou trocar!


(MULHER)
- Você falou com papai e mamãe pelasminhascostasissoéumabsurdoqueeles...


(MARIDO)
- Respira mulher! Não vai ter a idéia de pifar no dia da troca!

O atendente começa a digitar no terminal a sua frente.

(ATENDENTE)
- Qual ano e modelo?!

(MARIDO)
- Ah, antigo... Eu sei que o ano é 62, mas tem dito por aí que é 64, 65...


(MULHER)
- Nasci em Dezembro de 67! Vocêsabedissonemmevenhacomestepapoquevocêsabe muitobemminhaidade – e mais falação. Apnéia total.


(MARIDO)
- Não falei?!


(ATENDENTE)
- Isso acontece muito... E o modelo?


(MARIDO)
- Quando peguei era praticamente uma Ursula Andress, uma Bo Dereck... Lembra?


(ATENDENTE)
- Mais ou menos senhor... Não é muito minha época.


(MULHER)
- Ainda sou de virar a cabeça Almeida!!


(MARIDO)
- Não meu amor, você hoje é dor de cabeça! Por isso que dá problema na conexão!


(ATENDENTE)
- Humm... Ta dando problema na conexão é?


(MARIDO)
- Pois é... Teve uma época que eu até tentava conectar. Aí, era a tal dor de cabeça, não tinha clima, ou ocupado... Aí, não tem banda larga que segure né?


(MULHER)
- Quem? Banda larga você? - a mulher dá um risinho cínico e emenda mais blábláblá.


(ATENDENTE)
- E o número? Quer o mesmo?


(MARIDO)
- Ih! O número mudou muito... Muitos dígitos foram acrescentados ao original! Que o diga a balança! Ah, e já ia esquecendo: é segunda mão!


A mulher pára de falar puxando o ar horrorizada. Ela faz biquinho e faz que prende o choro.


(MULHER)
- Almeida, você sabe que casei virgem!


(MARIDO)
- Não minha filha, você é de Sagitário!


O Marido se aproxima do atendente e cochicha.


(MARIDO)
- Talvez terceira ou quarta mão, fora as linhas cruzadas durante o tempo de contrato!


(MULHER) (enfurecida)
- Linha cruzada? Linha cruzada você vai ver na sua cara seu safado!


A mulher parte para cima do Marido que ginga daqui, ginga dali, foge de uma bolsada, de outra. Enquanto desvia, qual ninja, o marido tripudia.


(MARIDO)
- Ou você acha que eu não sei do Pacheco? Do vendedor de sucos? Do vizinho do 307? Tô antenado! Viva a liberdade de escolha! Portabilidade! Santa portabilidade!


O atendente chama a segurança e dois brutamontes aparecem e arrastam a mulher para o fundo da loja. Ela vai se debatendo e xingando a tudo e a todos. O marido encosta no balcão recuperando o fôlego. O atendente mantém seu ar replicante, olhar simpático e sorriso vidrado, digitando freneticamente.


(MARIDO)
- Pô amigão... Desculpe o papelão. Mas esta mulher e eu, não tínhamos mais ligação...


(ATENDENTE)
- Que isso senhor. Estamos aqui para solucionar seus problemas. E isso tem acontecido muito.


(MARIDO)
- Imagino.


(ATENDENTE)
- Se o senhor visse como está o estoque... Pronto pra escolher um novo modelo?


(MARIDO)
- Sei não, to pensando em algo diferente.


(ATENDENTE)
- Quer ver nosso catálogo, quer alguma sugestão?


(MARIDO)
- Hummm... Este segurança que apareceu a pouco, o mulato, grande, mais novinho... Ele é 3G?
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Swing



Casa de swing, quarto do tatame coletivo, meia luz, um monte de gente nua e gemendo.

Ele sentiu uma cutucada. E por estar onde está, logo olhou na direção do que o cutucava.

Era um dedo. Ufa. E do Oliveira da contabilidade. Completamente vestido.

- Sabia que era o senhor seu Flávio.

São poucas as opções numa situação desta. Ele podia fingir que não era ele. Mas ali, pelado, em meio ao coito, era muita cara de pau se fazer passar por outra pessoa.

Fingiu naturalidade e sorriu para o Oliveira.

- Tudo bem Oliveira?

- Tudo certo Seu Flávio!

Os dois ficaram se entreolhando por um tempo. Ele tentou continuar concentrado no que fazia mas com o Oliveira ali, encarando, ele se sentia meio nu.

- Posso ajudar em alguma coisa, Oliveira?

- Oh! Não... Desculpe seu Flávio... Só estou esperando minha mulher... Só isso.

E Oliveira continuou sorrindo com cara de bom moço enquanto ele fazia o possível para não perder a concentração. Afinal, não era todo dia que ele encontrava uma mulata como aquela por ali. E apesar da sua esposa ser loira, as mulatas sempre o tiraram do sério. E aquela ali era um espetáculo. E ele sentia que estava quase lá, quase terminando, quase... Quase...

- Ah, que grosseria a minha. Nem apresentei vocês! – O Oliveira cutucou a mulata com que ele se ocupava. – Marluce, este é o Seu Flávio... Vice-presidente lá da empresa...

Ela olhou para trás por cima dos ombros e sem perder o ritmo respondeu com um sorriso maroto.

- Prazer...

- Ô! – Disse ele voltando a ganhar fôlego.

- Bacana o lugar aqui não é? – Pois é. O Oliveira queria assunto.

- Hum, hum... – Disse ele ali, ainda nos trabalhos.

- É a nossa primeira vez, né Marluce? –

- Hum, hum... – Respondeu ela, ainda nos trabalhos.

- O senhor veio sozinho ou a patroa está por aí?

- Sim, vim... com... a minha...

- Eu a conheci na festa de fim de ano, lembra? Dona... Dona...

- Marly! Hummmm...

- Isso! Tava aqui na ponta da língua!

Oliveira se calou por um segundo e ele achou que estava livre dele.

- Um primo meu é segurança... Arrumou pra gente vir! – Oliveira esticou o pescoço como se procurasse alguém. – Olha ele ali com sua esposa, Seu Flávio!

Ele olhou na direção de um bolo de umas três ou quatro pessoas. No meio pôde reconhecer sua esposa.

- É o mais moreninho... Aquele que puxou o cabelo dela! Dá-lhe Dona Marly!

De lá de onde estava Dona Marly se desvencilhou um pouco do musculoso que puxava seus cabelos e retribuiu com um tchauzinho agradecendo a saudação de Oliveira. Ele viu quando Oliveira gargalhou e na empolgação deu um tapinha em sua bunda nua.

Naquele exato momento algo nele aconteceu. Uma vibração, um êxtase, um orgasmo como nunca havia vislumbrado antes. Soltou um uivo e um grito. Algo preso em seu peito queria sair, voar, voar e voar. E olhou para trás e Oliveira estava lá, impávido, sorridente, com aquela cara de “estou sempre a seu dispor”.

- Terminou Seu Flávio?! É que a gente mora longe...

Na segunda demitiu Oliveira. Aquele cara o deixava confuso demais.


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