Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

Casa de Malucos



Esse branco todo sempre me deixa agoniado. 
Tudo bem que dizem ser necessário em ambientes hospitalares, mas isso aqui não é bem um hospital. É só uma casa de malucos. 
E eu me prometi não chamar assim.
Minha tia pediu tanto.
Mas o outro tá aqui, entregue a morte e eu tenho que vir e fingir que visito...
Minha tia pediu muito. 

Eu, particularmente, não gostaria de morrer assim.
Depositado, largado, encostado assim, num quarto, numa cama, sem ter ao menos memórias para lembrar das coisas boas que vivi. 

Das comidas que saboreei, das mulheres que forniquei, dos porres que tomei. 
No fundo mesmo não gostaria de morrer. Mas se for pra escolher seria dormindo. 
Tá bom, foda-se que é clichê, mas é como eu gostaria. Respeita. 
E tô aqui sentado pensando longe e  vi quando ela veio caminhando, lá do fundo do corredor, aquele olhar burocrático e mesmo naquelas roupas frias, do mesmo tom de tudo aqui, dava pra ver que era gostosa. 
Não como estas modelos de lingerie, magras que dão pena, mas mulher de verdade, daquelas que aguenta um cara ali sobre elas, sem pedir água. 
Puta sede, viu? E aqui, mesmo com a grana que se paga, não se oferece uma água, um café.
Porra nenhuma. Muquifo dos infernos.  
Com certeza, lá onde mora o capeta é assim. Tudo branco, paz pra caralho e sem água, nem café. 
No fundo mesmo pelo preço deveriam oferecer um café da manhã completo com direito a um boquete no final. 
E ela veio chegando, sabia que eu a observava e fingia que não se dava conta. 
Chegou bem perto e pude sentir seu cheiro. Aquela coisa de perfume doce, barato, que quando você entra no ônibus cheio é um inferno. 
Casa de malucos. Eu prometi... 
Ela disse que eu poderia entrar, pra tomar cuidado que hoje ele está um pouco mais agitado, que parece ter tido uma pequena recuperação. Bela bosta. 
Viver numa cadeira de roda, 40% de visão num olho, o outro tomado pela catarata, sem movimentos da cintura pra baixo, cheio de sonda e sem poder mastigar porra nenhuma... 
Como assim recuperação? Estava piscando sozinho? 
Ri por dentro da minha piada e me senti culpado de não sentir culpa nenhuma. 
Falando francamente? Se eu passar por isso me dá um tiro na cabeça. 
Eu falei que queria morrer dormindo , mas por favor, se for pra ficar assim me acerta a têmpora. Bang e pronto. Quando abrir o olho tô lá falando com São Pedro, tudo branquinho... Se bem que. Se for como aqui, essa coisa sem vida, prefiro o tal do inferno. 
Enquanto caminho olho para a bunda a minha frente, sobre a calça branca da pra ver a pequena calcinha. Branca. Se fosse séria mesmo, não usava uma calcinha dessa. 
Ela sabe que os machos olham, ela colocou pra provocar, vadia. Todas. 
Chegamos a porta e ela repete as recomendações. Não pode isso, não pode aquilo, não pode, não pode, não fode! Puta que pariu piranha, não sou burro não. 
Sorrio de forma franca e entro. 
Me aproximo da cama e os olhos azuis dele me encaram. Encaram porra nenhuma que ali não se vê nada. Mas ele tenta. 
Da boca escorre uma baba densa, que desce pelo pijama e faz uma poça no travesseiro. 
Ele tenta sorrir ou sei lá que porra é essa que ele tenta fazer com a boca. 
- Marcílio? 
Ele sempre gostou mais do meu irmão. Era o mais calmo. Quando minha mãe deixou a gente com ele, ficou claro a preferencia. Eu era o cão chupando manga e meu irmão bom moço. 
Ai, depois me perguntam como pude não ir ao enterro do meu próprio irmão. Eu acho que ele não deu reparo. Com certeza vou pro inferno. 
No fundo prefiro, não sei se disse. 
- Não, sou eu... Mauro. Lembra de mim, tio?
Ele não responde. Filho da puta. Apenas olha para o lado na direção da janela. 
É como se eu não estivesse mais lá. Filho da puta. 
Quando eu era mais novo era a Televisão. Agora essa porra de janela. 
Dali só uma árvore, um sol filho da puta e um vasinho com flores de plástico.
E é para lá que ele prefere olhar. 
Não dá pra me arrepender do que vou fazer. Vim aqui pra isso. 
Levei quase uma semana decidindo. 
Mentira. 
Decidi rápido, só levei uma semana pra vir aqui. Não teve muito tempo de reflexão não. 
Melhor isso que ficar aqui nessa casa de malucos. Foda-se tia.  
Pego o travesseiro e ali mesmo tampo seu rosto. Sei que vou ter ainda uns 30 minutos com ele. Tenho tempo de sobra e aqui ninguém entra. 
A merda é essa. Como ele não se move, não sei se já terminei ou não. 
Não é justo você se emputecer comigo não. Tô matando alguém que já tá praticamente morto. Então, e daí? 
E não é que o merda do meu Tio se move? Nada que não posso controlar, mas caralho, se é pra morrer, morre na moral. 
Sinto que ele se debate com a força de uma menina de 5 anos. Que merda isso. 
Se algum dia alguém me matar que seja com um tiro. Na cabeça. BANG! Pronto. 
Ele para. Retiro o travesseiro e a expressão dele guarda um horror que eu nunca vi na vida. 
Ajeito a cabeça dele outra vez. Pronto. Parece como sempre. Ai, quando eu sair, digo pra ela que li o livro de sempre, contei as histórias de sempre e que ele adormeceu como sempre. 
Esta meia hora toda semana estava me tirando do sério. 
Matar alguém não é algo que valha de fato registro. No fundo nem senti assim. To te falando. 
E com a grana que vou receber, na boa? Você faria o mesmo. 
Olho para o meu tio, olhos abertos. Fico na direção entre o olhar dele e a janela.
Pronto, agora ele me vê. 
Sento na cadeira e aguardo os 30 minutos passarem fazendo planos. Viajar, comer mulheres, comer bem pra caralho, beber...  É preciso ter boas memórias pra poder lembrar. 
É o que eu sempre digo. 
Não quero morrer assim, como meu tio não. Jeito escroto de morrer. 
Antes de sair fecho os olhos de meu tio, enxugo seus lábios e ajeito seu travesseiro. Parace confortável.
Não quero morrer assim não... 

Quero viver bem a vida enquanto essa porra desse tumor não toma conta de tudo na minha cabeça.  
Casa de malucos.... Tomar no cu. 

Ler Mais

Mãe e Filha



O cartório cheio.
A palavra “próximo” ecoava pelas paredes tingindo-as de espera.
Ela abriu a pequena pasta rosa e conferiu os documentos murmurando cada um de seus nomes. Repetia o mantra burocrático como quem reza uma novena, sofrendo, com fé que nada faltaria ali.
Ela já tinha ido e voltado alguma vezes. Quase dois meses nesta coisa. E sempre faltava algo. Não por esquecimento dela, nunca. Tinha certeza que os caras ali do cartório se revezavam no deboche.
É a falta que faz um homem a frente das coisas. Não tem jeito. O mundo é dos homens. E estas coisas é homem que resolve.
Os que ela teve na vida? Juntando todos, não daria um.
O telefone tocou, ela olhou o visor e desligou.
 Quando mais nova eles faziam fila. Ligavam, mandavam flores, jantar, teve o que mandou jóias... Ela sabe o que queriam. E não dava.
Quando deu, bem mais tarde, engravidou, casou, teve a filha e separou.
Tudo isso durou quase dezessete anos. Mas pra ela eram apenas aquelas etapas. Nada a acrescentar. Ah, sim, o apartamento em Botafogo que virou um na Tijuca e outro em sabe-se lá onde aquele infeliz foi morar com aquelazinha mais nova no interior de Goiás. Desejou um câncer para eles.
A fila não andava e o telefone dela tocou outra vez. Ela tornou a desligar.
Por culpa dele nunca se formou, nem teve como estudar.
Ele a queria em casa. Sua mãe joga isso na sua cara até hoje. Mostra as amigas que são doutoras, professoras ou que tem comércio.
Elas deram sorte foi com o marido, isso sim.
Teve que voltar a morar com a mãe em Copacabana e alugou o apartamento da Tijuca. Não agüentava as despesas do condomínio. E com a morte do pai sobrava espaço naquele apartamento.
Ficou sabendo que o ex teve mais dois filhos, hoje formados, bem de vida. Outro dia sua filha mostrou as fotos deles na internet.
Havia achado o pai numa destas redes sociais. O pai mandava uma mesada murcha e dizia que não queria ver a filha pois lembrava muito a mãe.
A filha maldizia o pai. Mas vira e mexe o catava ali no computador.
Não gosta de internet.
Navegou um pouco, procurou um namorado mas tudo que encontrou foi um monte de tarado querendo mostrar seus pintos nas câmeras. Homem é tudo igual.
Ajeitou seus cabelos vermelhos olhando o espelho no cartório. Um pouco acima do peso, mas se achava linda. Mas era bonita pra ela.
Tinha mais de oito anos sem homem e nem sentia falta. Tinha paqueras sim, dois senhores às vezes a levavam ao cinema. Um não sabia do outro e ela se divertia com isso. Um uma vez quase desmaiou ao tocar seus seios.
Mais uma vez o telefone tocou e a trouxe de volta a fila. Encarou o visor como se não visse nada. A música vulgar do celular, aquele toque mais comum, repetia, repetia, repet...
- Alô mãe...
Ouviu por um minuto e mudou de expressão.
- Não, já decidimos... Eu sei mamãe... Não... Aquilo não nos serve de nada... Já falamos disso... To no cartório... Aqui o sinal falha.
Ouviu. Balançava a cabeça negativamente cada vez mais forte.
- A senhora me deu a procuração por isso. Já decidimos... Não, eu não decidi. Nós decidimos. Sei que era de papai... Mas nem vamos mais lá. Não chora mãe! Que merda! A senhora sempre faz isso... Depois a gente se fala!
Desligou. Prendeu a respiração e sentiu que o choro viria. Ele veio como pequenos soluços e lágrimas espaças. Ela se encolheu e ninguém na fila pareceu se importar.
Repetia baixinho pra ela mesmo.
- Putaquepariu... Putaquepariu... Putaquepariu...
 A fila não andava. Começou a digitar em seu telefone. Ouviu. Nada. Repetiu. Ouviu. Nada. Mais uma vez... E outra... E outra...
Em outro ponto da cidade sua filha olhava o visor do celular e desligava todas às vezes que tocava. 
Ler Mais

O Que Não é Mais Gente


Sentiu o soco como se fosse uma benção.
Naquele exato momento começava a desexistir.
Desexistir. Desistindo foi...
Salpicou a calçada com um vermelho vivo e orgânico. A criançada riu divertida.
Fez com a lingua a conferencia dos dentes. Faltavam alguns. Tinha gasto uma grana no ortodontista para aquilo. Puta falta de considera...
A pancada pegou em cheio no raciocinio. Onde no corpo nem sabia mais. Foi tanto chute, soco, tapa, cuspe que nem se dava conta mais. Tanto fazia.
Nem dor sentia.
Estava ali a quantos dias? Não. Tinha uns dois minutos... Ou duas horas?
Olhou para o relógio e sentiu que seus olhos não focavam mais. Tudo embaçado de vermelho. Sabia que num deles nem mais olho havia. Só uma órbita negra e desforme.
Outro chute, mais outro, tudo começou a escurecer... Não, não. Cair no limbo agora não! Estava em meio a um raciocínio interessante. Adorava quando desenvolvia teses sobre ele mesmo. Ah, sim, seus olhos.
Verdes, grandes, lindos. Mudavam de cor por vezes e ganhavam um azul turqueza enebriante no inverno. Comeu muita gente por conta disso.
Agora eram um buraco e meio vazios de luz. Ali girava um eco de imagens.
Passou seus dedos tortos sobre a cara macilenta e não podia mais dizer o que era olho, nariz, boca... Não consguia nem soprar. Fez um bico e tentou um assobio.
Ouviu risos.
De repente ficou muito do puto dentro das calças. Que porra é essa? Do que debochavam? Deus socos e chutes na direção do escarnio. Ou pensou em dar e só chorou. Vontade não faltou. As lágrimas raivosas ardiam sobre as feridas.
Mais risos.
E chutes, socos, tapas e nada... Não sentia mais nada.
A ultima dor que identificara veio de suas partes. Sentiu que ali gastaram um tempo. Pisando, esmagando, dilacerando suas coisas... Que já haviam lhe trazido tanta felicidade e orgulho. Um homem sem sexo não é mais.
Sabia que entre os paus que lhe acertavam, tinha também um cano. E quando cruzava o ar para acertá-lo soltava um uivado. Ou era um gemido dele mesmo. Uivado, gemido, uivado, gemido. Era os dois. Ou três, quatro, muitos... Uma puta covardia.
Mas agora nem dor sentia. Doia mais ele não saber mais porque estava ali.
Uma sede enorme ressecou sua garganta dolorida. Sentiu o laço como uma gravata. O ar? Ar.
Provou o gosto daquilo que escorria abundante pela sua cara.
Sentiu-se morrer na ponta da lingua.
Ler Mais

Traição


Foi a primeira a saber de tudo.
Por um segundo ficou sem fôlego.
Um terço nas mãos e uma oração dita aos céus.
No quarto coroas de flores, velas e as carpideiras.
O quinto dos infernos era onde ele devia estar.
O sexto sentido já tinha lhe avisado disso...
Do sétimo céu a queda nunca cessa.
Ou oito ou oitenta... A vida é assim. A morte mais simples.
A novena mastigada entre os dentes miúdos.
Era a última da mesa.


Os último serão sempre os primeiros.

A saber de tudo.

#

Ler Mais

Cadê Deni”zs”e?

Ele se aproximou, ela levantou os olhos. Bonito ele. Do tipo inacessível.

- Denize?

- Não.

- Seu nome não é Denize?

- Não. – A pausa do charme e ela completa. - Meu nome é Denise com “s”.

Ele fez para ela um olhar de quem estranha. Estranhamente lindo era ele.
- E como pode saber se o Denise que falei é com Z ou com S?

Ela sorriu inteligente.

- Pelo jeito que falou...

- Que jeito?

- O jeito oras... As Denises com “S” são mais soltas, safas, sinceras... E não foi como falou.

- Solteira? - Ousado ele.
- Talvez. - Vermelha ela.

- E as com “z”?

Ela olhos fundo dentro dos olhos pretos dele. Sentiu que fosse cair ali dentro mas, apesar do medo da altura, respondeu com firmeza.

- Zombeteiras...

- “Zacanas”?- Ele murmurou. Ela fingiu não entender.

Ela voltou a arrumar livros. Estavam numa biblioteca.

Tinha anos que ela procurava o amor da sua vida. Mas como não achara, resolveu estudar biblioteconomia que acabou por ocupar seu coração.

Mas era uma mulher, portanto curiosa em sua essência.

- E porque procura a... Denize?

Ele começou a ajudá-la com os livros. Quase por extinto.

- A cartomante disse que é o amor da minha vida.

- Mas ela disse com “z”?

- Não... Jogou as cartas e murmurou... Deni... Ze ou Se.

Ela conhecia a cartomante. Havia passado por lá uma vez. Saiu com a certeza que um homem surgiria, o grande amor de sua vida. César.

- Cesár? – Ela murmurou... Os olhos deles se iluminaram num sorriso.

Os dois se beijaram e a sua volta tudo se tornou um musical.

Um chafariz surgiu no meio da sala, fichas coloridas saiam das gavetas e voavam, uma linda canção de amor, e muitos, mas muitos bailarinos iam e vinham entre as estantes. Os dois flutuavam em passos jamais vistos como Ginger e Fred, Fred e Ginger. Uma coisa linda de se ver.

Ao fim do número Denise encarou seu amor e perguntou.

- Cézar com “z” ou César com “s”?

Anos mais tarde eles aprenderam.
O amor se escreve com qualquer letra que se
queira.






#Publicado originariamente no Blog www.zarayland.blogspot.com. Valeu Cezar pela inspiração :)

Ler Mais

O Homem que Não Queria Ir a Copa do Mundo.

Entrevista coletiva, aquele clima, microfones, burburinho e o técnico entra em cena. Senhor supremo do destino de milhões de brasileiros, traz a esperada lista em mãos.
Flashes disparam numa tagarelice de luz, metralhando de todos os lados.
Ele já entra olhando para baixo com aquele mau-humor de quem de fato será esquecido com o tempo, é coadjuvante, menos que o craque e, sinceramente, está mais ali para atrapalhar do que ajudar. Praticamente para torcer de um ponto privilegiado.
Sabe que aqueles 23 que convocou não vão agradar a todos. Nem em casa agradou.
- Você vai levar este sujeito em vez daquele outro? Tu não entende de futebol mesmo hein? Se não trouxer esta a Copa, nem volta pra casa! – Foi assim que sua mulher o acordou pela manhã.
Equilibra em suas costas este peso, que só a vaidade deixa mais leve. Senta a frente dos microfones e vai dizendo a lista em tom monocórdio, como se fosse um último pedido.
Tudo dentro do previsto, um pequeno frenesi, o grupo já fechado há tempos até que chega o último nome...
- E o Pompeu.
Silêncio no local. Ele levanta, sorri e se retira.
O que começou com um cochicho vira um burburinho e em pouco tempo uma algazarra.
Afinal: quem era Pompeu?
Todos os sites, colunistas, especialistas e Marias Chuteiras se perguntavam o mesmo.
Quando o telão mostrou a foto de Pompeu, em seus 50 anos, ele em casa foi acordado pelo telefonema.
- Pai, o que o senhor esta fazendo na seleção? – Dizia o filho mais velho gritando do outro lado do aparelho. – Liga a TV!
Pompeu acordou e meio sonado, ligou o televisor , quase zero, comprado em prestações até a outra Copa.
A mulher entrou na sala vinda da casa da vizinha. Coração na boca.
- Pompeu de Deus, que negócio é esse?
- Ah, só pode ser pegadinha. Coisa do Tavares. – Vaticinou Pompeu.
Não, não era. Tavares também foi pego de surpresa, lá no Méier, e ficou puto de nunca ter pensado em tal sacanagem.
Logo a imprensa especializada cercava a casa de Pompeu. Um dois quartos quase que todo pago, coisa de mais dez anos e tudo se resolvia, virava ponto de agito do bairro.
O telefone não parava. Pompeu tentava explicar, justificar, apontar caminhos.
Mas simplesmente não sabia.
O técnico justificou a escolha como tática e ponto. Precisava do Pompeu.
Pedido de entrevistas, coletivas e até um convite para um ensaio sensual. Não, aquilo não era sério.
Pompeu decidiu apenas ignorar tudo e todos e levar sua vida como se nada daquilo tivesse acontecido.
Ilusão que não durou a sua primeira ida a padaria.
Um link ao vivo entrou no principal jornal da maior emissora de TV, com direito a narração:
- Vai Pompeu, entra livre pela esquerda, passa por um, passa por dois e pede três pãezinhos...
Um repórter surge na frente de Pompeu, luz e câmera.
- Pompeu, diz pra gente como é a emoção de comprar este pãozinho?
Pompeu saiu correndo para casa, driblando fãs, jornalistas e até empresários ávidos por seu talento.
Em outro canal especializado o mediador do debate esportivo pedia a opinião do craque de outrora.
- Pompeu está em forma, não é mesmo?
- Comprar pão, receber troco e se lançar para casa é coisa de quem conhece. E viu o pique que ele deu fugindo dos repórteres? Aquilo é coisa de ponta esquerda, dos que vão a linha de fundo para cruzar... – Completou o ex-ídolo. Outro comentarista, sem a menor intimidade com a pelota mas grande teórico – existem muitos – começou uma crônica de improviso.
- Qual Epaminondas, grande half-center de 1953, Pompeu traçou uma trajetória mágica pelo estabelecimento, e este pão, besuntado da manteiga dos craques, entrará para história como um momento mágico para os panteões do esporte bretão. – Teve gente no estúdio que chorou.
Pompeu entra em casa e bate a porta empurrando o povo que se aglomera para fora. A mulher da cozinha grita.
- O moço da Inter de Milão ligou de novo e dobrou a proposta. Deixou o número e disse que pode ligar a cobrar!
Pompeuzinho, o filho mais novo, entrou pela porta da frente, abraçado a ele, a nora assustada e arrastado pela mão, o neto chorando.
- Pelo amor de Deus pai, nossa vida virou um inferno! Tão maltratando seu neto na escola!
- Tão chamando o senhor de traidor da patriáááááá – o final da frase do menino emendou com o choro.
Aquilo tinha que cessar. Pompeu caminha até a porta e abre num gesto corajoso.
- Tá bom, tá bom, diz lá que eu vou pra tal de Copa do Mundo!
O povo vibrou. Pompeu saiu carregado pela multidão. Como todo craque deveria ser.
Uma semana depois já estava com o grupo.
Por ser mais velho, logo assumiu a liderança da equipe. Muitos buscavam nele um conselho, um toque, uma palavra amiga.
Pompeu com seu jeito paternal explicava as coisas da vida.
Num piscar de olhos a Copa começou. Pompeu ganhou sua posição nos treinos. Dava mais toque ao time e formou com mais três boleiros o que foi chamado de losângulo fascinante.
Na primeira fase foram goleadas que entrariam pra história das Copa. Na segunda, um jogo duro contra a Holanda e nada mais. Passar pela Argentina foi fácil. Pompeu fez dois. Maradona reconheceu que talvez Pompeu fosse seu sucessor. Os dois acima de Pelé é claro.
Na final Pompeu era dúvida. Os joelhos, sempre eles, não ajudavam.
Não dava pra jogar os noventa minutos.
Jogo complicado, o narrador perguntava se Pompeu não havia amarelado.
Perdendo por um gol a seleção foi para o intervalo. O técnico se aproximou de Pompeu:
- Sabe porque o convoquei?
O técnico murmurou algo no ouvido de Pompeu que sorriu.
Na volta ao campo Pompeu estava lá. Logo no início Pompeu lançou o centro-avante que fez o primeiro.
Com uma bela cobrança de falta Pompeu virou o jogo e aos quarenta e três minutos fechou o caixão com um belo sem pulo do meio da rua.
Foram semanas de festas. Pompeu sumiu da família por quase uma semana.
Entrevistas, fotos, encontro com presidente, festas de jogadores e Marias Chuteiras até que Pompeu cansou.
Chegou em casa lá pras tantas da madrugada e a esposa avisou em meio ao sono.
- Tem bolo de carne na geladeira.
- Tô sem fome.
Pompeu sentou em frente a TV e ali ficou vendo resenhas e reprises durante dias.
O que o treinador falou para ele antes da decisão ninguém nunca soube.
Com o caneco na mão e um sorriso bobo no rosto, Pompeu, esperava resignado talvez acordar a qualquer minuto.

#
Ler Mais

Céu de Cereal


Antes da pelada sempre jogamos conversa fora.

Coisa normal de homens prestes a travar embate campal, fazer gols, delirar e ter seus momentos de glória.

Falávamos vagamente sobre viagens, vôos e afins. Eis que alguém levanta a dúvida:

- Não entendo esta coisa do Comandante avisar que saiu mais tarde, mas para compensar, vai aumentar a velocidade do avião para chegar no horário... Porque já não se vai nesta velocidade e apenas se chega mais rápido.

Após risadas de todos, alguém lúcido, e mais bem informado que a maioria, explicou que existe um certo cálculo entre aceleração x combustível que pode deixar a viagem mais cara ou mais barata de acordo com a velocidade e a distância percorrida.

Na mesma hora viajei.

Em tempos de caos aéreo, imaginemos que isso vire regra num futuro próximo.

Você está num vôo que já saiu bem atrasado e o comandante, entre todas aquelas informações pavorosas, tipo 10 graus abaixo de zero é a temperatura exterior, altitude de “muitos” mil pés, diz com aquela voz marrenta de quem está fazendo algo simples:

(Comandante)

- Boa tarde senhores passageiros, aqui é o Comandante Otacílio e quero me desculpar em nome da SkyWay, a Linha aérea da nossa terra, pelo nosso atraso em solo. Para ganhar tempo vamos aumentar nossa velocidade em vôo em 20%. Desta forma chegaremos em nosso destino no horário marcado...

Após relaxar na poltrona, você pensa que aquela tonelada de aço só cai no vôo dos outros. Então a aeromoça surge em sua frente com aquele olhar de pingüim de geladeira.

(Aeromoça)

- Boa tarde passageiro, seja bem vindo ao vôo 472, da SkyWay, a Linha aérea da nossa terra.

(Você)

- Boa tarde...

Ela sorri impassível e continua seu speech como se nada tivesse ouvido.

(Aeromoça)

- Conforme a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2013, pela alteração na velocidade as companhias aéreas podem cobrar a diferença das passagens in loco.

A Aeromoça começa a digitar num pequeno Palm Top.

(Aeromoça)

- O seu bilhete, assento 3B, é de categoria executiva plus e pelos meus cálculos... Temos uma diferença de 47 Reais e 22 centavos... Correspondente a 20% no aumento da velocidade da aeronave...

(Você)

- ... Como?

A Aeromoça abre um sorriso de “nossa, outro burro” e o atira em sua direção.

(Aeromoça)

- Conforme a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2012...

(Você)

- Que porra de lei é essa?

(Aeromoça)

- É a a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2012, que pela alteração na velocidade as companhias aéreas podem cobrar a diferença...

- Que louco...

- Não! In loco. Quer dizer, no local.

Outro olhar de “Burro” lançado em sua direção. Você fica puto.

(Você)

- Sim minha filha, eu entendi, eu sei o que é “in loco”. Só acho uma absurdo! E meus direitos?!

(Aeromoça)

- Ah, o senhor tem o direito de pagar em cartão, crédito ou débito, ou em cash.

(Você)

- Quer dizer que vocês atrasam e eu que pago o pato.

(Aeromoça)

- Não senhor. Patos não são aceitos.

Você olha para Aeromoça descrente que ela tenha feito uma piada. Saca seu cartão e paga prontamente. A moça se afasta e você volta a pensar na vida. Minutos depois o comandante volta à carga.

(Comandante)

- Boa tarde senhores passageiros, mais uma vez quem fala é o Comandante Otacílio da SkyWay, a Linha aérea da nossa terra. Devido aos ventos sul sudeste de latitude 32º com 79 graus de inclinação, informamos que nossa aceleração descerá em 12%, mesmo assim chegaremos em nosso horário normal.

Qual aparição a Aeromoça está a sua frente mais uma vez.

(Aeromoça)

- Boa tarde passageiro, seja bem vindo ao vôo 472, da SkyWay, a Linha aérea da nossa terra.

(Você)

- O que foi agora?

(Aeromoça)

- Conforme a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2013, pela alteração na velocidade da nossa aeronave...

(Você)

- Ah minha filha, não me diga que vou ter que pagar mais alguma coisa?

(Aeromoça)

- Não, olha que coisa boa... Temos que restituir o valor pago ao senhor.

(Você)

- Ah agora sim... Finalmente algo que funciona neste país!

(Aeromoça)

- E o senhor ainda pode escolher o sabor!

A Aeromoça estende em sua direção uma caixa repleta de barrinha de cereal.

(Você)

- O que é isso?

(Aeromoça)

- Barrinhas de Cereal, saborosas e nutritivas! Temos chocolate com coco, amêndoas...

(Você)

- Que são barrinhas eu to vendo, mas o que significa isso?

(Aeromoça)

- Conforme a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2013, o seu troco pode ser dado em produtos da empresa... Ou seja, barrinhas. Prosseguindo, temos maça com mel, crocante...

(Você)

- Eu não posso ficar preso a isso!

(Aeromoça)

- Ah, as barrinhas tem muita fibras, preso o senhor não vai ficar!

(Você)

- Isso é um absurdo... Vou ao Procon! A ANAC! A policia Federal! Não sou banana!

(Aeromoça)

- Perfeito... Pelos meus cálculos o senhor tem direito a 4 barrinhas. Aqui estão... De banana, não é?

Você fica sem ação segurando as barrinhas tal qual um garoto com as mãos queimando pela vela durante sua primeira comunhão. A Aeromoça segue para outra poltrona distribuindo as barrinhas. Você fecha os olhos como se buscasse refúgio do ódio imenso dentro de seus pensamentos. Esta quase relaxado quando o comandante volta.

(Comandante)

- Boa tarde senhores passageiros, mais uma vez quem fala é o Comandante Otacílio da SkyWay, a Linha aérea da nossa terra. Perdemos a força dos ventos sul sudeste de latitude 32º com 79 graus de inclinação. Ao mesmo tempo, uma inversão térmica faz com que nossa aeronave tenha que elevar sua velocidade em quase 15%. Mas chegaremos pontualmente ao nosso destino.

Você abre os olhos e quem está a sua frente sorrindo enquanto digita no palm top?

(Aeromoça)

- Conforme a lei 20.540, de 17 de dezembro de 2013, pela alteração na velocidade as companhias aéreas podem cobrar a diferença das passagens in loco. São 27 Reais...

Sua vingança está ali, doce, pronta em suas mãos. Você dá um sorriso maléfico e estende as barrinhas na direção da Aeromoça replicante. Ela devolve o sorriso no mesmo nível.

(Aeromoça)

- Infelizmente senhor não aceitamos barrinhas, apenas dinheiro ou cartão. São mais 27 reais, o senhor vai pagar como?

O Avião não chega a seu destino.

#


Ler Mais

As Sereias da Estante


“Do que vale tanta leitura se a memória é fraca?”.
Pensou, que este seria um ótimo começo para um romance. Uma sentença simples, direta e significativa. Um verdadeiro epitáfio para qualquer ambição humana de se marcar para posteridade.
Estava em meio à leitura de um livro que já havia começado um par de vezes. Prometeu a si mesmo nada mais de digressões e virou outra página.
As palavras não convenciam sua compreensão.
Acabou ficando ali parado. Indo e voltando na mesma frase do escritor fabuloso. Não estava mais atento o suficiente. E era um destes romances que mais que lidos, devem ser decifrados. Broxara.
Ficou com vontade de dizer ao livro:
- Desculpe, mas isso nunca aconteceu comigo antes...
Riu.
“Do que vale tanta leitura se a memória é fraca?”
A frase se repetiu em sua cabeça como um pretexto para que largasse a leitura. Uma voz de sereia fazendo com que emergisse em pensamentos mais distantes. Naufragava ao sabor das palavras e se deixava levar. Já que estava ali, nas profundezas, resolveu explorar.
Vasculhou na sua memória o primeiro livro que havia lido. Nada.
Olhou sua estante. Um orgulho. Títulos e mais títulos. Tentou fazer um resumo mental de cada um dos exemplares. A cada três, um simplesmente era novamente inédito. Mesmo folheando algumas páginas se perguntava quem eram aquelas pessoas, lugares e códigos.
Entristeceu.
“Do que vale tanta leitura se a memória é fraca?”
Lembrou que na biblioteca de Moscou, eram mais de um milhão de exemplares. Nas suas contas mentais, mesmo devorando um livro por semana, durante 20 anos não chegaria a 4.000. Com esforço a 6.000. Pouco, nada, era um insignificante.
Enfureceu.
“Do que vale tanta leitura se a memória é fraca?”
Foi indo e vindo. Do escritório para o jardim da casa. Vai e volta e logo as estantes estavam vazias. Todos os livros formavam uma pilha generosa sobre o gramado. Ao lado deles em outro monte, madeiras, estopa e jornais. Fósforo, brasa, chamas, labaredas.
Sem nenhum ritual mais elaborado começou a queimar um a um, cada exemplar. Folheava as três primeiras páginas, olhava a sua capa e atirava na fogueira. No começo com alguma mágoa, depois com um certo sabor de vingança.
A única coisa que realmente lamentava é que aquela frase, a que havia achado tão boa, fugira completamente da sua memória.

#
Ler Mais

Bacon


Debaixo do papelão e do jornal surgiu o moleque.

A figura esquálida e encardida parecia mais à sobra do que o próprio ser que a carregava. Bermuda larga, suja, camiseta sem mangas, uns dois números maiores com propaganda de político, suja, e tênis, um pé de cada, sujos. Todo o conjunto tinha um tom sobre tom marrom que combinava com a pele e a cor do centro da cidade.

Ele espreguiçou até não poder mais e em certo momento as costelas pareciam querer rasgar aquele pele macilenta que cobria o seu peito.

Tirou o pinto pra fora e urinou fartamente sem ligar que ali, na Avenida, logo as nove da matina, a maioria das senhoras e senhoritas passavam a caminho de seus trabalhos. Por um momento parou de ser paisagem e virou absurdo.

O que antes parecia uma figura de dar pena, daquelas que a gente passa ao largo e ao longe parecia um cano vazando, agora, por conta do atentado ao pudor, lembrava um ser humano.

E a urina jorrava farta, amarela e brilhante, descrevendo um arco no ar. Ele parecia sentir orgulho daquilo e brincava com a potência do jato procurando acertar cada vez mais longe.

Sorria mostrando os dentes beges e irregulares. Alguns eram cacos desenhando um sorriso devastado.

Idade? Quando cutucava os vidros, tentando vislumbrar de fora os fantasmas que guiavam os carros, fazia cara de 10 ou 11 anos.

As vezes a inocência nos olhos batia os 9 anos. Quando tocava terror, abusando dos outros garotinhos e garotinhas, mostrava uma virilidade de mais de 18 anos. Por isso, dava pra fazer uma média.

Nem ele sabia. Nem a ele importava.

Acabou de mijar e balançou o pênis como se fosse um troféu e um abuso a todos. Viu de longe o Guarda Municipal que se aproximava avisado por alguém. Deu de ombros.

Nem por milagre com aquela barriga toda o meganha poderia alcançá-lo. Mas o seu instinto sabia que ele não viria sozinho. São sempre covardes e não seguem regras na brincadeira. Sempre vem em dois contra um ou mais.

Por isso, era bom não ficar mais por ali.

Amanhã arrumava outro quarto, tem tantas opções. Afinal, a cidade há mais de tantos anos era sua casa. Toda. Sala, cozinha, quarto, playground, piscina... Tudo era dele. E cada canto ele conhecia como cada ponto manchado em sua pele.

Nem correu. Apenas apressou o passo e sumiu como camaleão na paisagem. Puxou a pele da barriga alongando o estômago. Sabia que aquilo significava fome.

A cola de sapateiro já tinha feito com que pulasse meia-dúzia de refeições. Mas agora a coisa estava crítica.

E naquela hora sempre tinha uma senhorinha ou um boy que, tomando café, compadecia da cara que usava àquela hora. Coitado.

Tinha uma casa de sucos ótima duas ruas mais abaixo e ele caminhou sem pressa. Ao contrário do que se imagina, adorava aquela sensação de “o que será que vou comer?” Da última vez teve um resto de café com leite, um gole de refresco de acerola, meio misto quente e depois de uma futucada no lixo achou uma coxinha quase inteira.

As vezes em dias de feira tinha sempre frutas que escolhesse caídas pela rua. Quase todas limpas, quase todas boas, quase todas saborosas.

O dia de verão prometia ser quente e enquanto caminhava fez a sua programação mentalmente. Depois do café um bom mergulho no chafariz perto da igreja grande. Ali também poderia fazer suas necessidades e partir para planejar o almoço.

Queria experimentar o novo hambúrguer que via nas propagandas dos ônibus e uma vez viu no painel de TVs na loja. Todo mundo que comia o novo sanduíche sorria e ficava mais feliz. Aquilo devia ser melhor que a cola. Riu sozinho.
Sabia qual era a lanchonete pelas cores e pela marca. Chegando lá era só apontar:

- Quero aquele da foto e uma Coca grande.

Esta parada de juntar letras definitivamente não era com ele nem pra ele. Não entrava na sua cabeça.

Enquanto cutucava os clientes da lanchonete, com aquele discurso ensaiado, pensava em onde encontraria o hambúrguer da vez. Hambúrguer era uma forma carinhosa de tratar suas presas, seus ganhos.

- Me paga um café, por favor? – Era um mantra repetido a cada novo puxão nos clientes. Muitos olhavam e balançavam a cabeça negativamente. Outros agarravam a bolsa e negavam também. Outros olhavam e nada viam, só o marrom do centro. Ele mesmo nem ouvia suas palavras absorto em seus pensamentos.

Mas, água mole em pedra...

- O que você quer? – Aquilo o despertou do plano perfeito. Porta da grande loja. Por volta de meio-dia ficava lotado e muitos garotos ficavam por ali pedindo. Ele viu quase como real o hambúrguer saindo com uma bolsa grande, cheia, com várias coisas para ele.

Era tanta a experiência que ele podia dizer claramente o que havia na bolsa só pela cara do sanduba. Sabia só de olhar quem tinha um bom celular, não aquelas merdas pré-pagas, as que teriam um bom batom pra trocar por um boquete, as que teriam fotos pra ele imaginar sua família. Era crânio nisso.

O bom samaritano teve que repetir pra ele cair em si.

- O que você quer moleque?

Ele respondeu meio puto.

- Um joelho e suco de laranja.

- Ô Juarez, da um joelho aqui e um refresco pro garoto.

- Não quero refresco não, quero suco!

- Tu é folgado hein moleque...

- Este refresco é uma merda.

- Então come só o joelho e não fode! – Pra ele tanto fazia. Nem estava com sede. Tinha fome e o joelho o seguraria até o hambúrguer. O atendente escolheu um da vitrine e ele apontou o vidro.

- Este não, o outro! – Foi como se ele não existisse. E o Juarez fez que não ouviu e esticou o salgado na direção dele. “Nessas horas eu queria ter um berro! Não, uma granada seria melhor... Levava todo mundo comigo sorrindo...” E abocanhou com raiva seu café da manhã.

Deu as costas para a lanchonete e observou a rua.

- De nada, hein? – Falou o homem já arrependido de seu gesto nobre.

Ele não ouviu. Ou não quis ouvir. Ou se ouviu, não ligou. O homem já era passado.

Pegou carona no vai e vem do centro e as pessoas da lanchonete sumiram pra ele e vice-versa. E para sua surpresa não precisou caminhar muito. Dali de onde estava avistou um suculento hambúrguer duplo. Ele já tinha provado um daqueles antes. Era um verdadeiro xis-tudo.

Sacolas nas mãos, ar distraído e uma bolsa de couro linda, gorda, farta, dando mole.

Roliça daquele jeito, apenas um esbarrão e ia ao chão. Enquanto o povo entendia o que estava acontecendo, ele puxava a bolsa, e saia livre, dobrando a esquina e ganhando a avenida principal.

Aquela hora era perfeito, pois a maioria dos de farda azul ou estavam no estresse do trânsito ou fazendo sua boquinha de café da manhã 0800, porque afinal ninguém é de ferro. Sabia que o principal era criar tumulto, pânico, terror. As pessoas paralisam e este é o tempo, para ele mergulhar na cidade tornando-se mais uma vez invisível.

A invisibilidade é um dom dos que são largados como ele. Não, na cabeça dele nem passa pena, ou menos valia. Pois quando quer e precisa, ele se faz notar.

E a Sra. Xis-tudo está prestes a perceber.

Ele caminha despreocupado e parece que faz compra com a dona. Um toque de celular. Hummm, não poderia ser melhor. Ele vê quando seu almoço pára, solta as bolsas no chão e procura o celular na principal. O aparelho é bacana.

Aquele seria um momento ideal, afinal a distração é total. Mas não, o aparelho é perfeito. Daquele que tem tecladinho e um monte de “praqueisso”.

Podia esperar e o papo parecia que ia levar tempo.

Jogou o joelho ainda pela metade fora e ficou ali de cócoras, observando o sol e o movimento. Sem nunca tirar o olho da presa. Seu Xis-tudo falava a vontade e parecia não ter segredos para o mundo.

Ouviu em detalhes do tratamento da mãe, já idosa, tadinha, sim, sim, oitenta anos... As fezes já sem consistência, a doença de nome estranho, a mudança constante de enfermeiras – “Ninguém tem paciência com ela...” – a promessa da visita, beijos, ligo sim, tchau.

Ele esticou o pescoço felinamente e mesmo agachado parecia vislumbrar o mundo de delícias que viriam de dentro daquele troféu.

O exato momento ficava entre o colocar do celular dentro da bolsa e o soltar antes dela voltar ao ombro. Ali estava o ponto frágil.

Era crânio nisso.

Preparou o bote e sentiu a boca se encher de água na expectativa do banquete.

Não seria apenas um. Com certeza seriam dois ou três da novidade da lanchonete de marca.

A madame apenas deixou o aparelho escorregar para dentro da bolsa e ele partiu a caça.

Seu corpo se movia com graça e leveza. Seus músculos apareciam sobre a pele num desenho lindo.

Já imaginava os arrotos do gás da Coca-cola. A sensação da barriga cheia, morna, dura.

Num movimento gracioso fez a senhorinha rodopiar no ar, junto com ele num balé mágico e desabar no chão quase que imediatamente. Em segundos a bolsa já estava em suas mãos e a rua se abria a sua frente com um mar de possibilidades. Nada pessoal, só a vida na savana.

Pediria mais molho, queijo extra e bacon. Muito bacon. Sua boca salivava e sem sentir sua baba voou no vento.

A bala estava apenas a milímetros de sua cabeça.

O bacon crocante foi seu último pensamento antes de virar um pequeno ponto vermelho naquele marrom todo.


#Vale a pena ver de novo. Na segunda, post novo.
Ler Mais

O Engolidor de Palavras


A primeira vez que ele ouviu pensou que fosse apenas um pensamento perdido em sua cabeça. Daqueles que dão voltas e ficam batendo de um lado para outro, insistentes, girando dentro do coco. Mas a frase se repetiu algumas vezes e depois foi caindo, como se do topo de sua cabeça descesse, ali pela região da nuca, escorregando pela a garganta e chegassem apenas algumas sílabas ao estômago.
Ele estranhou. Logo ele tão prolixo e articulado, não era de engolir as coisas assim.
Tentou pensar em algo genial. E de novo repetiu-se a sensação.
Quem sabe algo mais simples e... Outra vez.
Era isso. Não conseguia mais externar o que pensava e tudo o que dizia virava um eco interno, indo goela a baixo direto para a pança.
“Como vou fazer pra comprar pão?” – Pensou.
E ouviu. “pra comprar pão...” “comprar pão...” “pão”... “ão”
Sentiu-se engolir as palavras, que desceram pescoço adentro com um sabor e cheiro de padaria às 6 da manhã. O lado bom foi que sentiu-se estranhamente alimentado.
E os textos seguiram-se, parágrafos inteiros. Pensamentos perfeitos, que agora eram ensimesmados, degludidos com o apetite dos que trocam suas vidas pela vida dos outros nas bibliotecas.
A barriga ficava assim, estufada, como um garoto subnutrido, o umbigo estufado e se sentia empanzinado de verbetes. E acabava arrotando sílabas, fonemas, nada completo saía boca a fora. E após muito insistir, viu que não tinha mais coragem, nem disposição.
Acabou passando os dias a abocanhar palavras. Nem mastigava. Algumas delas eram comuns, vulgares, usuais, desciam como pudim. Outras, antes de engolir, tinha que consultar um dicionário para ver senão fariam mal.
Mas tinham certas coisas que ele engolia que ficavam ali, dias, sempre difíceis de digerir. Suava frio na hora de colocar para fora. Já passou por isso?
Foi quando ouviu o carro de som anunciando o Circo.
Ah! Podia entrar para o circo. Fariam filas para ver a nova atração, seria famoso, engoliria palavras e seu próprio eco em cadeia nacional.
Podia inclusive ampliar seu número, engolindo em várias línguas. Seus olhos brilharam com a possibilidade. Só não gritou de felicidade porque mal pensou, e a alegria toda já estava chegando ao estômago.
Procurou o Dono do Circo que ficou impressionado com sua habilidade.
Um número assim seria atração principal. Muito melhor que a mulher com poder de síntese!
O dinheiro que ele ofereceu era um desaforo. Mas, como de costume, apressou a engolir o que pensava sobre aquilo e como sempre, assim como quase todo mundo, aceitou de bom grado.
E cartazes foram espalhados pela capital. Foi anunciado em toda parte...
A arena estava cheia.
Naquela noite, estranhamente, a audiência não torceu para os leões devorarem o domador, nem tão pouco para o erro do malabarista.
A promessa das palavras que não saem, sempre trazem uma certa tensão no ar.
- E com vocês o espetacular, magnânimo, sublime... Engolidor de Palavras! - Disse o mestre de cerimônias balançando sua cartola freneticamente.
Foi quando ele anúncio surgiu no palco. Roupa brilhosa, um ar confiante. Refletia.
A audiência em polvorosa aplaudia de pé.
E ele, emocionado com o reconhecimento tardio a seu talento ficou completamente sem... palavras.
Até que tentou pensar em algo, algo realmente inovador e diferente. Nada. Nem uma letra. Um vazio da cabeça aos pés. Seu coração parecia que ia saltar pela boca, como num desenho animado e sair dançando de cartola e bengala nas mãos.
Mas não era isso que haviam pago pra ver.
Na verdade a maioria eram intelectuais, cientistas, pensadores. Uma platéia que sempre adora um espetáculo em que não tenha que mexer nos bolsos.
A vaia começou mansa e foi ganhando o mundo. A turba enfurecida queria pão, circo, e para dar um tempero, sangue! Choveram tomates, pedras e o que mais doía, as verdades cortantes atiradas de todos os lados. Ele engolia as ofensas uma a uma e logo viu que se não saísse dali explodiria. Ou pior: começaria a gostar daquilo, talvez até virasse atendente de telemarketing.
Todos avançaram sobre ele. Assim é a fama. Todos querem um pedacinho de você, nada demais. Um naco, uma fatia, uma lasca. Algo para levar pra casa e deixar sobre o criado mudo.
Fugiu. A fama ali, e ele fugiu. Veja só.
Corria, como aquelas fugas em cinema mudo. E passou horas, dias, meses, correndo. E, até mesmo para ficar mais leve, resolveu não pensar em mais nada.
Levou sua vida assim, de forma simples, correndo das coisas.
E com aquele medo. De morrer sufocado em suas próprias palavras.

#
Ler Mais

O Cão de olhos com brilho de diamantes.


E vinha ele em sua marcha trôpega adentrando o túnel.

Sobre suas quatro patas carregava sua palermice total, a língua pesada para fora da boca e o instinto estúpido que o empurrava para aquele destino fútil.

Os carros desviavam, passavam, buzinavam, ejaculados daquele buraco numa pressa vertiginosa. Bólidos incandecentes, sólidos solitários, numa corrida sem chegada.

Ele na contramão.

A cada novo farol os olhos brilhavam, hipnotizados. Era como fazer parte daquele céu de estrelas cadentes e finalmente estar presente aos olhos sempre distantes. Agora ele existia.

Mesmo que empecilho, pedra no caminho, pedra no sapato, sapato que acelera, acelerando quase por cima do Rex, Totó, Pluto, Bidu, Rintintim... Sem nome, sem causa.

Ele não tinha porque voltar. Sabia seu destino.

E ia.

A margem do túnel, a beira da morte. Quem não vive assim? Como o cão.

Passos curtos, zigue-zague, brincadeira, ganhando mais alguns segundos de vida.

E quem vive sem ambição, vive por frame.

Os carros guinchavam, berravam, zuniam.

Carros são nada mais que gente sem piedade.

Dá-se o luxo de sentar. Logo ali? A sua patetice espanta, comove e dá raiva. Abre a bocarra e solta um ganido. Preguiça de viver.

A fome o corrói todos os dias.

Se já não há bastante para os vira-latas bípedes, quem dirá para ele.

A ferida que já foi sarna, já foi pústula agora é parte dele mesmo.

Nem se julga miserável, porque havia de ter sido alguma outra coisa, para poder se comparar, mas nada foi além daquilo. Então é o que é. Nada mais, nada menos.

Volta a caminhar sem direção e sem saída.

As chagas, que se misturam aos tufos de pelo cinzento, brilham na escuridão e, ironicamente, parecem olhos de gatos que o salvam das rodas vorazes. E ele ganha mais um segundo. E outro. E outro.

O túnel o devora aos poucos. Regurgita fuligem. Arrota flashes de luzes. Automóveis como dentes buscam o que triturar. A língua marrom de óleo no chão reflete um brilho alógeno. Amarelo, fosco, cru como ele. Que mergulha trotando imbecil garganta adentro.

E os faróis refletem em seus olhos. Diamantes que são, a sua própria luz no fim do túnel.


# Foto: Miguel Barroso - www.fotosensivel.com -
Ler Mais

Coração Roubado


O telefone tocou um par de vezes. Luciana não tinha muitas esperanças que ele atendesse. Mas continuava a insistir. Ligou de novo. E de novo. Deixava tocar até entrar a musiquinha da operadora. Desligava e tornava a ligar. E o gordo atrás dela, no orelhão, soltava muxoxos cada vez mais altos. Luciana estava distante dali, nada afetava a ela. O choque faz isso com as pessoas. De condutores a passageiros de suas vidas por minutos. O que restava de opção? Tinha que arriscar a ligação e, quem sabe, ele atenderia.

Insistiu mais uma vez. Nada. As pessoas na rua iam e vinham alheias ao seu problema. Somente o roliço, de barriga dura e bigodes grossos, compartilhava sua dor. Não por dó ou solidariedade. Mas porque este era um dos únicos telefones que funcionava naquele bairro.

E ele também, assim como eu, você, todo mundo, tinha pressa.

Luciana tinha comprado um cartão de 60 ligações, gastando os últimos trocados que achou no bolso. Sua mãe diria que aquilo era um exagero. Mas ela era dada a estes impulsos. A sensação de ligar para seu próprio número era estranha, mas só mesmo Luciana para estar numa situação como aquela.

Ligou mais uma vez. Quem sabe ele...

- Alô? – Ele disse já sem paciência.

- Alô... Quem está falando? – Ela até tentou sorrir. Mas não conseguiu disfarçar seu nervosismo.

- Quer falar com quem? – Ele já estava sendo grosseiro.

- Sou eu, a moça do ônibus... – Luciana tremia.

- Sei... Olha só. Não tem parada. Se ligar de novo o bicho vai pegar. Vai ficar ruim pra tu, tá ligada?

- Tô, acho que sim... – Luciana começou a chorar baixinho. Sabia que não podia ter mais esperanças. Mas, ele não podia tratá-la assim. Principalmente depois do que ele a fez passar.

- Então pára de me torrar o saco! –

Luciana nem respondeu mais, só chorava. Ele ficou em silêncio por alguns segundos e desligou. Luciana ainda soluçava quando colocou o fone no gancho. Se afastou arrasada do telefone. O obeso tomou o lugar dela sobre a cúpula e nem notou.

O que é uma pessoa chorando para quem tem pressa?

Luciana até estranhou quando ouviu o telefone tocando ao longe, mas estava tão dentro de seus pensamentos, lembrando tudo que havia acontecido naquela manhã.

O café com seus pais, o atraso, o ônibus, a arma, a bolsa que se foi...

- É para você! – Disse o homem.

Luciana olhou meio sem entender para o fone que balançava ameaçadoramente na sua direção. Ela já tinha ficado frente a frente com coisa muito pior naquela manhã. E como Luciana ficou ali, parada,titubeando, o homem largou o telefone e saiu praguejando. O telefone ficou ali, pendurado, balançando pra lá e pra cá como se quisesse hipnotizá-la.

Luciana hesitou. Não queria mais saber daquele sujeito, daquela história, da confusão. Vida que segue. Afinal, depois de tudo que passou, não precisava de mais nada. Mas ela é impulsiva...

- Pois não... – Quando viu já estava respondendo.

- Quem tá falando? – Ele agora carregava na doçura em sua voz. Quando queria sabia ser convincente. Duro ou sedutor, era irresistível.

- Sou eu, a moça do ônibus...

- Ah tá... – uma gentileza com sabor de brisa vinha dele. Leve.

- Ah tá, o que? – Luciana se fez tímida.

- Você tem uma voz linda...

Agora essa. Luciana não resistiu e fingiu irritação.

- Olha aqui, não acha que é muito atrevimento seu?

- O quê?

- Vir com este papinho...

- Pode ser. Mas que tem a voz bonita, tem...

Luciana não se conteve e sorriu. Ainda bem que estava no telefone. Não iria dar este mole pra ele.

- Você colocou uma arma na minha cara! – Luciana conseguiu recuperar a firmeza na voz.

- Ah princesa, ossos do ofício...

- E isso lá é ofício?

Ele não sabia o que era ofício. Só sabia a frase de cor. E a repetia que valia o significado de “cada um é cada um” ou coisa assim.

Ficaram em silêncio. Ela preparou o próximo movimento.

- Devolve minhas coisas... – Disse Luciana usando suas armas.

- Ih princesa, complicado hein? Pede uma coisa mais simples...

- Vai me dar o maior trabalho. Devolve minhas coisas...

- Fala assim de novo Luciana, que eu gamo. – Ele terminou com uma leve risada.

Luciana gelou. Ele estava em vantagem. Tinha todos os seus números. Sua vida estava na sua bolsa.

- Gama nada. Com você não tem idéia, é só na força...

- Quem te disse? – Ele se controlou para não alterar a voz e dar razão a ela.

- Ué, eu vi... – Ela lembrou de toda a cena. Ele subindo no ônibus e chamando sua atenção. Afinal, era um mulato lindo. Luciana o olhou disfarçadamente por trás dos óculos escuros algumas vezes. Pensou até na cara da mãe, se ela chegasse com ele em sua casa. E não só Luciana como todo o coletivo ficou assustado quando ele berrou assalto e virou o cão no interior do veículo. Porque ele havia escolhido ela para colocar a arma na cabeça era confuso. Mas ele, quando olhou pra Luciana ao entrar no ônibus, não teve dúvidas: existia amor à primeira vista.

- E se eu te disser que olhei pra você e me apaixonei...

Ela sentiu o rosto enrubescer. Ele tinha notado algo. Mesmo por trás dos óculos ela tinha dado alguma bandeira. O mulato havia percebido a quedinha dela.

Então ele começou a falar. Num outro tom, num outro clima, com uma verdade absoluta no coração. Contou de sua infância, das dificuldades, das vontades, dos sonhos e ela vez por outra comentava, concordava e até mesmo ria das suas histórias.

Contou que seu nome era Antonio Carlos. Mas na favela era conhecido como Calú.

E que queria deixar aquela vida, terminar o segundo grau e arrumar uma moça legal para apresentar para a mãe.

- Pra mim foi um sinal... – Disse ele, já mais para Antônio Carlos, que para Calú. E assim passaram um par de horas. Ela esticava papo, jogava seu charme como toda mulher, adorava seduzir.

- Onde? – Ela se surpreendeu com a pergunta dele.

- Onde o que? -

- Eu te encontro para devolver suas coisas... – Antônio Carlos fazia planos. Imaginou a cara da mãe com Luciana chegando na sua casa com ele.

Combinaram. Ela sorria feliz. Afinal, de uma forma ou de outra havia resolvido tudo. Mal desligou o telefone voltou a discar.

Uma hora se passou e Luciana estava sentada num banco na praça combinada e comia um bombom para disfarçar a fome. Numa das mãos segurava outro, esse para Antonio Carlos.

Ela o viu do outro lado da rua descendo do ônibus, a mesma linha que havia assaltado horas antes. Sorriu ao vê-la e atravessou apressadamente entre os carros. Havia trocado de roupa e usava a agora uma camiseta que realçava seus músculos. Com certeza queria impressioná-la.

- Nossa, como ele é lindo... – Ela não sabia se havia pensado ou murmurado as palavras. Luciana ficou de pé, para também se exibir um pouco. Havia soltado o cabelo e deixado o pescoço à mostra, como num convite. Antonio Carlos apressou o passo e balançou a bolsa que trazia junto ao corpo em direção a ela.

Ela acenou de volta e sorriu...

Antônio Carlos nem sentiu quando os homens se aproximaram. Não sentiu a banda e seu corpo ser jogado violentamente ao chão. Logo eram dois, três, cinco, dez. Armas para todos os lados. Um joelho na sua nuca pressionada sua boca contra o chão de pedras portuguesas. Em algum momento havia machucado o lábio que agora sangrava fininho. Muitos gritos, ordens, rádios, sirenes. Calú não passaria por isso.

Ainda viu pelo canto do olho um dos homens entregar a bolsa a Luciana, que sorriu satisfeita.

Naquele momento Antônio Carlos e Calú perceberam que muitas vezes o amor é uma verdadeira armadilha.


#

Ler Mais

A Virada do Ano


E lá ia o Almeida caminhando de um lado para o outro.
A taça de champanhe tremia em suas mãos e ele via tudo através de uma neblina fina.
A batida de amendoim havia descido melhor que aquela Espumante. O que tinha demais a velha Cidra? A mulher dizia que não. Na posição em que eles estavam uma Cereser pegava mal.
Quantos anos-novos foram regados a Cereser? Quantos? Uns 30.
Depois veio a vendinha, que virou padaria, uma filial, duas, três. E Copacabana, Prado Júnior, cobertura e todos novos amigos que alguns trocados trazem.
Não foi assim tão rápido, mas pra ele foi.
A cabeça girava. Almeida olhou para a varanda e não teve coragem de se aproximar. Afinal, metade das pessoas que se acotovelavam para ver o mar e os fogos, ele não conhecia dos tempos da Cereser. Era gente que veio junto com a Espumante, com a Prado Júnior, com a cobertura. Agora, apinhada. Copacabana se arreganhava como as moças que lá ganham a vida, mais bela e branca do que nunca. Queria ver amanhã, só os bêbados, flores e promessas espalhadas pela areias.
Já ia dar meia-noite e a euforia tomava conta de todos.
A Espumante não conseguia tirar o cheiro da batida de amendoim dos bigodes de Almeida. Mais um gole longo, outro, outro. Não era só virada de ano, era virada de século. O bug do milênio, o fim dos tempos, Nostradamus, uma odisséia no espaço.
Almeida encarou o seu relógio de pulso e viu os últimos 5 segundos do ano passarem a ponteiradas.
5.
Adeus ano velho...
4.
Feliz ano novo...
3
Que tudo se realize...
2
No ano que vai nascer...
1
Muito dinheiro no bolso...
0
- EU SOU GAY!

Os fogos explodiam lá fora em meio ao silêncio absoluto na varanda do apartamento. Todos em uma coreografia olharam para Almeida. Mulher, filhos, netos, amigos Cereser e Amigos Espumantes olharam para Almeida.
- Rei de que Almeida? Rei de que? – disse um.
- Não é Rei, é gay! – Outra voz.
- Gay é você! – Um terceiro.
- Não, gay é o Almeida. – Sempre tem um espirituoso.

Sem notar Almeida empunhava o microfone do Karaokê.
Nem Almeida acreditou no que havia dito.
Quer dizer, acreditar ele acreditava, pois sabia disso fazia tempo, mas não acreditava que havia dito. E compelido de uma força maior que ele repetiu.
- Eu sou gay!

O cunhado se aproximou.
- Porra Almeida! Falei pra não abusar da batida... – O Cunhado tenta tirar o microfone das mãos de Almeida.

Ele puxa com força. Todos fazem um “óHHHHHH”.
- Gaaaaaay! – Repete Almeida colado a boca de ferro, com direito a delay.
O cunhado se atraca com Almeida tentando pegar o microfone.

Vez por outra Almeida aproxima o microfone da boca e afirma: GAY! Os fogos ainda pipocam no ar como uma celebração a revelação de Almeida.
Todos correm para apartar. Raimundo, um padeiro novato, nos seus 30 anos, entra na briga aos berros.
- Solta ele Pão-doce! Solta ele!

Todos se afastam intrigados. Raimundo pega Almeida gentilmente em seu colo e o coloca de pé. Ajeita sua roupa carinhosamente, dando tapinhas pelo seu corpo.

- Pão doce? – disse um.
- O que doce? – Outra voz.
- Tampa os ouvidos da criança! – Uma terceira, maldosa.

Almeida encarou a todos, mulher, filhos, parentes, cereseres, espumantes... Olhou Raimundo nos olhos e um contraluz dourado surgiu, vindo de um dos fogos da praia, emoldurando o rosto de seu parceiro. Raimundo sorriu cúmplice para seu Pão Doce.
- Te amo Rosquinha! – Murmurou Almeida.

Os dois se entrelaçaram e em meio aos fogos e as gritarias vindas da praia, deram um longo, apaixonado e molhado beijo.
E ninguém se atreveu a perguntar porque Rosquinha.
Ler Mais

Marcadores

3G (1) A Fábula do Pé Sujo (1) A Fábula do Pé Sujo. (1) A Lápide (1) A Tal da Portabilidade (1) A Unidos dos Dois na Sala (1) A Virada do Ano (1) aeromoça (1) aladin (1) Amor a primeira vista (2) amores impossíveis (1) ano novo (1) Arrumação (Em Cadeados) (1) As Cores Dela nas Paredes da Cabeça Dele (1) As Sereias da Estante (1) Assalto (1) assassinato (1) Até que a morte nos separe. (2) avião (1) Bacon (1) barrinha e cereal (1) Bonecas (2) Cabeça (1) cachorro (1) Cadê Deni”zs”e? (1) Caixa Preta (1) caos aéreo (1) carros (1) casa de malucos (1) cereser (1) Céu de Cereal (1) circo (1) Com Deus Só a Vista. (1) concurso (1) construir (1) conto (17) Conto de amor (1) Contos do Rio (4) Copa do Mundo (1) Copacabana (1) Coração Roubado (1) Cortazar (1) cronica (1) Crônica (1) Crônicas (1) desejo (1) Dia de Mãe (1) Dia dos Namorados (2) ditos (1) Do Frio e Branco Azulejo (1) Do Ponto de Vista da Inveja (2) Dos seus saltos (1) Encontros (1) engarrafamento (1) Engolir Palavras (1) espumante (1) Existe Vida após a Morte. (1) fantasia (1) farol (1) Fred (1) Fundo do Poço (1) gênio (1) Ginger (1) Hamburguer (1) humor (6) Idéias (1) Kama $utra (1) lâmpada (1) linchamento (1) luz no fim do túnel (1) Mãe (1) Mãe e Filha (1) manicômio (1) Maradona (1) Marias Chuteiras (1) Me acertou em cheiro (1) menage (1) Mentirinha (1) Mil e uma noites (1) Moleque de Rua (1) Musical (1) O Buraco (1) O Cão de olhos com brilho de diamantes (1) O Engolidor de Palavras (2) O Gênio Ombudsman (2) O Globo (1) O Homem que Não Queria Ir a Copa do Mundo (1) O Que Não é Mais Gente (1) O T da Questão (1) O Último Dia (1) obra (1) Obras (1) orelhão (1) Os cílios postiços dos postes da avenida (1) pão doce (1) Passatempo (1) Pensamento (1) pião (1) poema (7) poesia (6) Portabilidade (2) prosa (1) Quando Ela Perguntou a Ele se estava caindo (1) revertere ad locum tuum (1) rosquinha (1) Saindo do armário (2) Sobre a última Estação. poesia (1) soco (1) sonha-me (1) suruba (1) swing (1) Técnico de Futebol (1) tecnologia (1) Teu Esmalte (1) Teu jogo (1) Top Blog (1) Traição (1) troca de casal (1) trocando de mulher (1) Ursula Andrews (1) Vida (2) vida de cão (1) Vida de Operário (1) Vida. (1) Vingança na carne (1) violência (1)