Teu Esmalte



Queria morar em teu beijo
Mesmo sendo grande
A chance de despejo
Queria viver no teu sorriso
Pois ali tem de um tudo
Daquilo que preciso
Morar na casa entre seus dentes
Ter sua saliva como parente
Das suas aftas serei vizinho
Nascer como tártaro de mansinho
Na sua saliva molhar a mão
Fazer de sua língua meu colchão
Ser o bafo que te envergonha
Descer na baba da tua fronha
Ser a cárie que te deixa louca
E contar as estrelas do céu da tua... boca
Queria rolar no seu batom
Esse vermelho sem vergonha
Rubro tudo de bom
Queria viver na tua risada
No esmalte dos teus dentes
Não me falta nada...


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Arrumação (Em Cadeados)



Abri a gaveta na sua cabeça

Deparei aquele pôr-do-sol

Rasgando um horizonte

feito de pétalas de girassol

Na bagunça da sua gaveta

Arrumei o lugar pra mim

Longe demais dos seus pensamentos

Mas fui ficando mesmo assim


Na cabeça da sua gaveta

Vi meu reflexo em teu espelho

Refletido carinho, sexo, gana

Reflexos de você em pêlo

Da bagunças da sua cabeça

Veio um lindo vestido vermelho

Vestiu a menina, a mãe, a amante

na medida de todos a meus desejos

Fechei a gaveta da sua cabeça

Na escuridão, num lugar só meu

De promessas, juras e lembranças

Esquecidos lá dentro você e eu...


Encadeados você, os cadeados eu, em cadeados nós.





Foto: Das Gavetas.

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Dos seus saltos


Minha paraquedista
Para que disto?
Porque insisto
Em saltar em você?

Minha Paraquedista
Para que distancia?
Do alto dos seus saltos
Nem me vê

Solta em minha vida
Solta minha vida
Solta vida
Salta

Minha Paraquedista
Para que diz isso...
Me apara querida
Como se tua fosse
a minha vida
E cuida
Para Queda
não seja muita.

Salto duplo é assim
eu quedo em você
você queda em mim







#Foto: Com os Andes aos meus pés. Marton Olympio - 2010
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O Último Dia


As pessoas passavam por ele chorando, gritando, dizendo que se arrependiam.
Ele conseguiu olhar de soslaio o digital na rua.
15:57. 3 minutos restavam.
Luz, gás, seguro do carro, a escola dos meninos, condomínio, tudo ali, cuidadosamente embrulhado no envelope de papel pardo.
Uma senhora caiu aos seus pés.
- Para onde vamos? Para onde vamos? – Ela gritava apavorada, olhos saltados, lagrimas borrando a maquiagem.
É. O fim do mundo não é mole não.
- Eu vou ao banco! - E desviou cuidadosamente da mulher que ficou ali caída. Contrita, orando, soluçando e chorando.
Ele virou a esquina e entrou na larga avenida. Viu de longe que os gafanhotos vinham aos montes, como chuva, castigo, punição!
Abriu o guarda-chuva. Os insetos caiam sobre ele como granizo fazendo um grande barulho e deixando as ruas de pedras portuguesas escorregadias e tingidas de verde.
Viu os raios que cortavam os céus e atingiam um sujeito aqui, uma madame ali. Tudo incinerado. Só conseguiu pensar numa coisa:
- O plano de saúde!
Parou de súbito e um raio caiu na sua frente. Ele olhou com cara de muxoxo para os céus.
Murmurou enquanto remexia o envelope.
- Era só o que me faltava!
A guia do plano tava ali. Que sorte. Se não pagar no banco, ir a loja do plano é um verdadeiro inferno...
Mal acabou seu pensamento e sob seus pés abriu uma fenda enorme, deu tempo apenas de pular de lado. Pessoas caiam lá dentro e as labaredas lambiam tudo. Ele se protegeu com o guarda-chuva que virou cinzas em segundos. Cheiro de churrasco no ar. Chegou a entrada do banco, empurrou e porta giratória e...
- Constatamos algum objeto de metal. Por favor, posicione-se atrás da faixa amarela. – Disse a voz eletrônica.
O segurança se aproximou com aquele ar despreocupado que lhe é peculiar.
- Celular? Guarda-chuva? Chaves? Moedas?
Esvaziou os bolsos sobre o olhar de suspeição do vigia. Uma moeda caiu ao chão e ele se curvou para pegá-la. Um pequeno meteorito passou por cima dele atingindo a frente do banco. A fachada, a logomarca, a porta giratória não existiam mais. Do segurança sobrou apenas o par de botas no mesmo lugar. Onde já estava há anos. Ele deu de ombros, juntou suas coisas e subiu as escadas apressado.
Não tinha filas. Nem na fila dos idosos. “Um dia de sorte” pensou com um sorriso nos lábios.
- Próximo!

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O T da Questão















Tenso
Teso
Tensiona
Te toma a Intenção .
Tesão
Teso deixa.
Em tensão.
Intenção.
Intensa.
Não tema o tema.
Tensiona latente.
Tenta.
Tentação.
Tenta a ação.
Tensa.
Intensidade.
Intensa saciedade.
O tesão.
A tensão.
Atenção.

Distensão...
Diz tesão...
Diz... Que me ama.



#
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O Que Não é Mais Gente


Sentiu o soco como se fosse uma benção.
Naquele exato momento começava a desexistir.
Desexistir. Desistindo foi...
Salpicou a calçada com um vermelho vivo e orgânico. A criançada riu divertida.
Fez com a lingua a conferencia dos dentes. Faltavam alguns. Tinha gasto uma grana no ortodontista para aquilo. Puta falta de considera...
A pancada pegou em cheio no raciocinio. Onde no corpo nem sabia mais. Foi tanto chute, soco, tapa, cuspe que nem se dava conta mais. Tanto fazia.
Nem dor sentia.
Estava ali a quantos dias? Não. Tinha uns dois minutos... Ou duas horas?
Olhou para o relógio e sentiu que seus olhos não focavam mais. Tudo embaçado de vermelho. Sabia que num deles nem mais olho havia. Só uma órbita negra e desforme.
Outro chute, mais outro, tudo começou a escurecer... Não, não. Cair no limbo agora não! Estava em meio a um raciocínio interessante. Adorava quando desenvolvia teses sobre ele mesmo. Ah, sim, seus olhos.
Verdes, grandes, lindos. Mudavam de cor por vezes e ganhavam um azul turqueza enebriante no inverno. Comeu muita gente por conta disso.
Agora eram um buraco e meio vazios de luz. Ali girava um eco de imagens.
Passou seus dedos tortos sobre a cara macilenta e não podia mais dizer o que era olho, nariz, boca... Não consguia nem soprar. Fez um bico e tentou um assobio.
Ouviu risos.
De repente ficou muito do puto dentro das calças. Que porra é essa? Do que debochavam? Deus socos e chutes na direção do escarnio. Ou pensou em dar e só chorou. Vontade não faltou. As lágrimas raivosas ardiam sobre as feridas.
Mais risos.
E chutes, socos, tapas e nada... Não sentia mais nada.
A ultima dor que identificara veio de suas partes. Sentiu que ali gastaram um tempo. Pisando, esmagando, dilacerando suas coisas... Que já haviam lhe trazido tanta felicidade e orgulho. Um homem sem sexo não é mais.
Sabia que entre os paus que lhe acertavam, tinha também um cano. E quando cruzava o ar para acertá-lo soltava um uivado. Ou era um gemido dele mesmo. Uivado, gemido, uivado, gemido. Era os dois. Ou três, quatro, muitos... Uma puta covardia.
Mas agora nem dor sentia. Doia mais ele não saber mais porque estava ali.
Uma sede enorme ressecou sua garganta dolorida. Sentiu o laço como uma gravata. O ar? Ar.
Provou o gosto daquilo que escorria abundante pela sua cara.
Sentiu-se morrer na ponta da lingua.
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Do Ponto de Vista Da Inveja


Laboratório. Noite. Pipetas, buretas, tubos de ensaio, almofarizes e azulejos. Muitos.

Um branco enorme e uma assepsia de uma clareza de semi-nova.

Ele, o rato de laboratório, passava o bigode por dentro de sua gaiola, em todos os cantos, com aquela inquietação mesquinha dos roedores.

Para cá e para lá.

Os olhos, apenas órbitas pretas, pareciam flutuar, soltos em meio aos pelos de uma brancura inocente. Como os que têm as almas boas e puras. Ou os cínicos.

O outro, o rato de esgoto, apareceu de uma fenda, um buraco, um lapso fedorento daquela alvura toda. Um deslize em toda ordem lógica do lugar.

Tudo tem sua brecha. Todo mundo.

Surgiu do seu jeito encardido, seboso, viscoso, fedorento. De uma cor de terra suja, carregando suas doenças e rejeição. De iguais os ancestrais e a mesma mesquinhez de movimentos.

Roedores parecem àquelas pessoas que comem solitárias em bancos de praças.

Ou entalados nos banquinhos dos fast-foods.

Engoles em pequenas dentadas. Escondendo nas mãos seus alimentos, num misto de vergonha e egoísmo. Depois relegam as suas migalhas aos pombos amaldiçoando o mundo em que animais estúpidos podem voar.

Dois ratos, dois mundos. Que se encaram.

O rato laboratório queria aquela liberdade.

O rato de esgoto queria aquela comida fácil.

O primeiro queria ser marrom, cheirar o medo nas pessoas se deliciar com o horror.
E atacar depois.

O segundo queria ser branquinho, fofo, cheiroso, para poder ser aceito, carinhado.
E atacar depois.

Um e seus vírus de laboratório. Inoculado, testado, experimentado. Mas um na cadeia de produção, cobaia, número apenas um reflexo do que somos.

Outro orgulhoso de todas as pestes ancestrais. Largado, aviltado, desprezado, perseguido. Vivendo em meio ao lixo, restos, excrementos. Ninhada de semelhanças com aqueles que dormem em camas de asilos.

E os olhos brilhavam negros enquanto desejavam. A boca enchendo de água só de pensar na vida do outro. A baba pinga viscosa.

Os olhares se cruzavam, debatiam, confrontavam. Podiam ficar ali secando um ao outro para sempre, por mil anos.

Como a vida, o primeiro precisava ser o segundo. O segundo necessitava ser o primeiro.

Uma liberdade de esgoto? Ou um cárcere farto?

A dúvida é vizinha da inveja na rua das escolhas.

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