Teu Esmalte

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Abri a gaveta na sua cabeça
Deparei aquele pôr-do-sol
Rasgando um horizonte
feito de pétalas de girassol
Na bagunça da sua gaveta
Arrumei o lugar pra mim
Longe demais dos seus pensamentos
Mas fui ficando mesmo assim
Na cabeça da sua gaveta
Vi meu reflexo em teu espelho
Refletido carinho, sexo, gana
Reflexos de você em pêlo
Da bagunças da sua cabeça
Veio um lindo vestido vermelho
Vestiu a menina, a mãe, a amante
na medida de todos a meus desejos
Fechei a gaveta da sua cabeça
Na escuridão, num lugar só meu
De promessas, juras e lembranças
Esquecidos lá dentro você e eu...
Encadeados você, os cadeados eu, em cadeados nós.
Foto: Das Gavetas.


As pessoas passavam por ele chorando, gritando, dizendo que se arrependiam.
Ele conseguiu olhar de soslaio o digital na rua.
15:57. 3 minutos restavam.
Luz, gás, seguro do carro, a escola dos meninos, condomínio, tudo ali, cuidadosamente embrulhado no envelope de papel pardo.
Uma senhora caiu aos seus pés.
- Para onde vamos? Para onde vamos? – Ela gritava apavorada, olhos saltados, lagrimas borrando a maquiagem.
É. O fim do mundo não é mole não.
- Eu vou ao banco! - E desviou cuidadosamente da mulher que ficou ali caída. Contrita, orando, soluçando e chorando.
Ele virou a esquina e entrou na larga avenida. Viu de longe que os gafanhotos vinham aos montes, como chuva, castigo, punição!
Abriu o guarda-chuva. Os insetos caiam sobre ele como granizo fazendo um grande barulho e deixando as ruas de pedras portuguesas escorregadias e tingidas de verde.
Viu os raios que cortavam os céus e atingiam um sujeito aqui, uma madame ali. Tudo incinerado. Só conseguiu pensar numa coisa:
- O plano de saúde!
Parou de súbito e um raio caiu na sua frente. Ele olhou com cara de muxoxo para os céus.
Murmurou enquanto remexia o envelope.
- Era só o que me faltava!
A guia do plano tava ali. Que sorte. Se não pagar no banco, ir a loja do plano é um verdadeiro inferno...
Mal acabou seu pensamento e sob seus pés abriu uma fenda enorme, deu tempo apenas de pular de lado. Pessoas caiam lá dentro e as labaredas lambiam tudo. Ele se protegeu com o guarda-chuva que virou cinzas em segundos. Cheiro de churrasco no ar. Chegou a entrada do banco, empurrou e porta giratória e...
- Constatamos algum objeto de metal. Por favor, posicione-se atrás da faixa amarela. – Disse a voz eletrônica.
O segurança se aproximou com aquele ar despreocupado que lhe é peculiar.
- Celular? Guarda-chuva? Chaves? Moedas?
Esvaziou os bolsos sobre o olhar de suspeição do vigia. Uma moeda caiu ao chão e ele se curvou para pegá-la. Um pequeno meteorito passou por cima dele atingindo a frente do banco. A fachada, a logomarca, a porta giratória não existiam mais. Do segurança sobrou apenas o par de botas no mesmo lugar. Onde já estava há anos. Ele deu de ombros, juntou suas coisas e subiu as escadas apressado.
Não tinha filas. Nem na fila dos idosos. “Um dia de sorte” pensou com um sorriso nos lábios.
- Próximo!
Um branco enorme e uma assepsia de uma clareza de semi-nova.
Ele, o rato de laboratório, passava o bigode por dentro de sua gaiola, em todos os cantos, com aquela inquietação mesquinha dos roedores.
Para cá e para lá.
Os olhos, apenas órbitas pretas, pareciam flutuar, soltos em meio aos pelos de uma brancura inocente. Como os que têm as almas boas e puras. Ou os cínicos.
O outro, o rato de esgoto, apareceu de uma fenda, um buraco, um lapso fedorento daquela alvura toda. Um deslize em toda ordem lógica do lugar.
Tudo tem sua brecha. Todo mundo.
Surgiu do seu jeito encardido, seboso, viscoso, fedorento. De uma cor de terra suja, carregando suas doenças e rejeição. De iguais os ancestrais e a mesma mesquinhez de movimentos.
Roedores parecem àquelas pessoas que comem solitárias em bancos de praças.
Ou entalados nos banquinhos dos fast-foods.
Engoles em pequenas dentadas. Escondendo nas mãos seus alimentos, num misto de vergonha e egoísmo. Depois relegam as suas migalhas aos pombos amaldiçoando o mundo em que animais estúpidos podem voar.
Dois ratos, dois mundos. Que se encaram.
O rato laboratório queria aquela liberdade.
O rato de esgoto queria aquela comida fácil.
O primeiro queria ser marrom, cheirar o medo nas pessoas se deliciar com o horror.
E atacar depois.
O segundo queria ser branquinho, fofo, cheiroso, para poder ser aceito, carinhado.
E atacar depois.
Um e seus vírus de laboratório. Inoculado, testado, experimentado. Mas um na cadeia de produção, cobaia, número apenas um reflexo do que somos.
Outro orgulhoso de todas as pestes ancestrais. Largado, aviltado, desprezado, perseguido. Vivendo em meio ao lixo, restos, excrementos. Ninhada de semelhanças com aqueles que dormem em camas de asilos.
E os olhos brilhavam negros enquanto desejavam. A boca enchendo de água só de pensar na vida do outro. A baba pinga viscosa.
Os olhares se cruzavam, debatiam, confrontavam. Podiam ficar ali secando um ao outro para sempre, por mil anos.
Como a vida, o primeiro precisava ser o segundo. O segundo necessitava ser o primeiro.
Uma liberdade de esgoto? Ou um cárcere farto?
A dúvida é vizinha da inveja na rua das escolhas.
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