domingo, 12 de outubro de 2008

A Lápide

Elias surgia na sala um pouco depois do jantar. Marlene assistia TV.
- Marlene, veja se está bem assim...
- Humhum...
- Tá prestando atenção Marlene?
- Humhum...
- Aqui jaz um homem que teve sonhos e em sua vida fez de tudo para realizá-los. – Falou em tom solene. Ficou por uns segundos aguardando resposta. Como nada veio.
- E então?
- Como?
- Eu bem que perguntei se você estava prestando atenção. Vou repetir...
- Não... Não precisa. Eu entendi. Queria ver se era isso mesmo... Posso voltar para minha novela?
- Ah, sim.

Ele sumiu para o quarto do casal. Da sala ela ouvia ele repetir em voz alta a frase algumas vezes em tons diferentes. Ela sabia que aquele diálogo não havia terminado. Elias não largava as idéias de forma fácil.
Até hoje tinham um aparelho de fazer abdominais por conta disso. As facas Ginsu, o medidor de pressão, o Abflex. E o terreno em Inhoaíba, hoje tomado por posseiros?
- Isso aqui vai crescer e faremos fortuna. – Disse Elias a época.

Sempre tinha em mãos um negócio de ocasião... Mas logo hoje?
Era o último capítulo de Vidas em Chamas. Em breve perderia as melhores companhias dos últimos anos. Mais dois blocos e ela seria abandonada para sempre pelo mocinho, pela mocinha, pela vilã...
- Sempre desconfiei dela. – Pensou.
E as cenas do casamento? Ela já havia visto muitas das fotos nas revistas e nos jornais. Como ela ia fazer a partir de segunda? Quem ela iria ter que encontrar e conviver.
- Novela sempre começa sem graça – Disse sua melhor amiga no salão.

Marlene já conhecia a rotina. Identificar suas novas companhias, de quem iria gostar, quem não iria com a cara, quando rir, quando chorar, quando se emocionar. Tudo mastigadinho, sem muito esforço. Ela sabia no fundo até que depois de um tempo esqueceria estes e sua vida se tornaria a vida daqueles outros.
Mas, fazer o que? Pra ela aquelas despedidas eram sempre muito difíceis.
- Olha só, mudei um pouco.
- Elias... Querido... Não pode esperar o intervalo?
- É rapidinho amor.
- O Inspetor Paulo já descobriu que a Fatinha é a assassina...
- Coisa rápida, um minuto...
- Estão em cima da ponte... Ela tá cercada...
- “Dorme aqui um homem que teve sonhos e em sua vida fez de tudo para realizá-los.” – Elias vaticinou com voz impostada.
- Ta ótimo. Só isso? Dá licença que você está na frente da TV...

Ele fechou a cara. Começou a gesticular e caminhar de um lado para o outro.
- Poxa Marlene, depois você reclama, que faço as coisas sem você, que você não participa dos meus projetos, que por isso não dão certo... To aqui escrevendo o que pode ser minha lápide, o registro da minha existência na terra e você nem tchuns. – E foi blá, blá, blá de encher a sala.

A vilã já havia despencado da ponte. Numa morte digna das vilãs. E merecida isso sim. E ela perdeu, numa das idas e vindas de Elias. 200 capítulos, todos assistidos, lidos antes através de resumo, esperados como uma missa. E agora? Como se concentrar no casamento com aquela falação toda. Logo, logo os noivos iriam se despedir dela, numa alegre morte via satélite. E voltariam a ser de carne osso, na sua fria e imprevisível vida real.
Marlene repentinamente se sentiu possuída de uma raiva histérica, que foi crescendo, crescendo, até se tornar uma calma inabalável.
Marlene sorriu para Elias e olhou dentro dos seus olhos de um jeito incomum.
Falou num tom frio, árido e desconhecido até então por ele.
- E por que não: aqui jaz Elias, o homem que fez a mulher perder o último capítulo da sua novela?

Elias sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
- E deste projeto querido, vou participar com prazer...
Elias instintivamente deu um passo e saiu da frente da TV. Marlene foi rapidamente capturada pelo brilho telinha. Hipnotizada pelo casório voltou a seu rosto de sempre.
Ele entendeu o quanto a novela era importante para a vida mulher. E não era ele, logo ele, que queria apressar as coisas.

2 comentários:

Céia disse...

Sou suspeitíssima pra elogiar tudo que escreve e faz.
Em boa parte dos casos, mesmo popicando pela casa, assisto o nascimento dos personagens e as vezes até discordo do desenrolar da história.
As correrias entre um intervalo e outro, renderam uma história lindaaaaaa.
Obrigada pela nossa vida.

16 de outubro de 2008 20:03
Gabriela Ventura disse...

gostei muito, principalmente desse conto, de verdade.

20 de outubro de 2008 14:52

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